Bom dia!!!
E para “concluir” este tema, o outro exemplo dado por John Holt, relativamente ainda às crianças que frequentavam a escola rural (as mesmas do exemplo que transcrevi no post da semana passada, portanto, do mesmo livro “Como As Crianças Aprendem”):
“Vejamos outro dos seus projectos. As crianças mais velhas costumavam publicar um pequeno jornal, que aparecia em intervalos de poucas semanas. Um dia, um aluno disse: “Se passamos tanto tempo a fazer este pequeno jornal, como fazem as pessoas um grande jornal todos os dias?”
A questão interessou a turma, como já aconteceu comigo. Resolveram investigar o assunto. Depois de algumas cartas, puderam visitar as instalações de um grande jornal. Os alunos estavam tão interessados nos processos de composição tipográfica e de impressão que começaram a investigar toda a história dos tipos, da impressão e da edição. O que despertou a curiosidade de alguns sobre a história da escrita e sobre materiais escritos em geral. Começaram a estudar os primeiros alfabetos e materiais escritos, como papiros, pergaminhos e outros. Logo decidiram fazer – escrever, compor e encadernar – um livro deles sobre a história completa da escrita, da impressão e da edição de livros. era uma tarefa e tanto! Não tinham ainda terminado quando chegou o fim do ano escolar, e um bom número deles ainda foi à escola, uma ou duas semanas após o fim das aulas, para finalizar o projecto. O Dr. Gordon mostrou-me o livro que fizeram. Era um trabalho maravilhoso, bem organizado, escrito com clareza, lindamente ilustrado e com diagramas e muito bem encadernado: era um livro de verdade. Ao fazê-lo, os alunos tinham ido do jornal contemporâneo aos inícios da história.
Estas histórias mostram-nos muitas coisas relativas aos modos de como as crianças aprendem. Elas vêem o mundo como um todo, misterioso talvez, mas ainda assim como um todo. Elas não o dividem em categorias pequenas e impermeáveis, como nós, adultos, tendemos a fazer. É natural para elas saltar de uma coisa a outra e fazer certos tipos de ligações que raramente são feitas nas salas de aula e nos livros escolares. Elas traçam os seus próprios caminhos na investigação do desconhecido, caminhos pelos quais nós nunca pensamos em conduzi-las. Assim, por exemplo, se concluímos ser importante para as crianças saber algo sobre a Guerra de Tróia, ou sobre arqueologia, começaríamos a falar-lhe sobre mergulhos submarinos? Certamente não. Mesmo que o fizéssemos, esse pode não ser um bom começo para algumas crianças. Finalmente, quando seguem as suas próprias intuições, o seu próprio “faro”, aprendendo o que estão curiosas por aprender, as crianças são mais rápidas, conseguem percorrer um território mais vasto do que o que jamais sonhámos para elas, muito mais vasto do que o que poderíamos levá-las a percorrer.
As pessoas têm-me dito com frequência, nervosa ou raivosamente que, se deixarmos as crianças aprenderem o que quiserem, elas se tornarão especialistas bitolados, idiotas experts em copas do mundo, por exemplo, e outras coisas do género. Não é assim. Muitos adultos o fazem. As universidades estão cheias de pessoas que se fecharam em pequenas fortificações de aprendizagem privada e artificialmente restrita. Mas crianças saudáveis, ainda curiosas e destemidas, não aprendem dessa forma. A sua aprendizagem não as encaixota, leva-as para a vida, que elas logo aprendem a explorar em diferentes direcções. Cada coisa nova que aprendem faz com que percebam coisas novas a serem aprendidas. A curiosidade delas cresce com o que a alimenta. A nossa tarefa é apenas garantir que ela tenha alimento.
Manter a curiosidade das crianças devidamente alimentada não significa alimentá-las ou dizer-lhes o que devem comer. Significa pôr ao seu alcance a mais ampla variedade possível de bons e bastantes alimentos, algo como levá-las a um supermercado sem “comida de plástico” – se é que é possível imaginar algo assim.”
Oxalá tenham gostado destes exemplos dados por John Holt, no seu livro “Como As Crianças Aprendem”.
Até para a semana, dia 1, Quarto Crescente, uns belos dias para todos!
Caderno Verde
Nós fazemos tudo e não fazemos nada
Com este apontamento hoje quero reiterar algo que li neste post do blogue Orca e Alce, que gostei muito de ler, pois é mesmo assim, e que vem muito a propósito desta temática de há três semanas para cá “Seguindo os seus interesses”.
Pois nós fazemos sim muitas coisas, sobretudo se as formos descrever, como o temos feito aqui neste blogue e no blogue “Pés Na Relva” no qual participamos juntamente com outras famílias, dá para escrever posts e posts e até fazer um livro! E se formos analisar, poderíamos escrever um rol de considerações, pensamentos, comentários, qual tese de doutoramento, mesmo empregando, se o quisermos, as palavras caras de índole pedagógica.
Por outro lado, também é possível que alguns pedagogos da “ala tradicional”, digam, sobre todas estas coisas que fazemos juntos, que não fazemos nada, pois nada está programado, esquematizado, antecipadamente inserido em objectivos pedagógicos e metas de aprendizagem, em conteúdos programáticos e susceptível de “avaliações” através de testes ou fichas (por acaso até é susceptível das ditas avaliações, mas nós não as queremos…
). E também não somos professores nem o nosso filho é nosso aluno. Não queremos ensinar-lhe nada, descobrimos coisas com ele. Portanto, não fazemos nada, só brincamos.

Vou confessar-vos que o título que tinha escolhido inicialmente para este blogue era “Sempre no Recreio”. Desisti dele por duas razões: uma, que para mim não foi a determinante, foi o Pedro ser de opinião que o título deveria conter algo que, em termos de pesquisas na internet, referenciasse a palavra educação, ensino doméstico, escola, algo que directamente nos relacionasse com o conteúdo efectivo deste blogue; a outra (que foi a determinante), porque me apercebi, em conversa com amigos, de entre os quais, professores, e sem perguntar directamente nada sobre este título, que “Sempre no Recreio” provoca, é uma provocação subtil. E eu não sou dada a provocações (sorriam, não sou mesmo…), a última coisa que quero, ou melhor, não quero de todo, fazer juízos de valor sobre o trabalho de outras pessoas, e muito menos provocar alguém. Este é um blogue de partilha de um caminho percorrido, de vivências, sentimentos, “cliks” (“insights”, intuições, despertares, redespertares), queremo-lo construtivo.
Logo quando do nascimento deste blogue, escrevi um pouco isso no primeiro post. E uma achega sobre a escolha do título “A Escola É Bela”, no 2º post.
Portanto, nós com o Alexandre, só brincamos, passeamos, vivemos o nosso dia-a-dia, lemos histórias, inventamos outras, representamos, cantamos, dançamos, damos palmas, rimos, abraçamo-nos, jogamos, pintamos, estamos atentos ao que lhe desperta o interesse e a curiosidade, em vários níveis, apoiamo-lo na satisfação da sua curiosidade e a desenvolver esses seus interesses. Algo muito simples que pode ilustrar isto (para além de todos os relatos que já fiz neste blogue e no Pés Na Relva dos nossos passeios, visitas a exposições, irmos de propósito andar de comboio, de ferry-boat e de teleférico, porque ele adora fazer isso, actividades e brincadeiras) é o que escrevi já há uns tempos sob o título “Passeio de Domingo” para o Pés Na Relva.
E qual não foi o meu espanto, agora que vai ser necessário inscrevê-lo numa escola em “regime de ensino doméstico”, andando “às voltas” com a legislação e descarregando no site da Direcção Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular o programa curricular para o 1º ciclo (colocámos, a Ana e eu, algumas indicações sobre a legislação afecta ao ensino doméstico numa nova página, “Legislação“, no blogue “Pés Na Relva” e o link para o referido site onde podemos descarregar em formato PDF o programa curricular do Ministério para o 1º ciclo), e lendo os conteúdos programáticos definidos para o 1º ano, que é o que o Alexandre está, oficialmente, prestes a iniciar a sua frequência, qual não foi o meu espanto, dizia, quando me apercebi que seguramente metade desses conteúdos já foram abordados e apreendidos por ele, exactamente sem fazermos nada por isso.
Trocado em miúdos, o não fazer nada, ou o fazer tudo(!), reflecte um 1º ano do 1º ciclo já no papo, ainda 5 meses antes do início do dito 1º ano. Eu, mãe, sei-o, constatei-o por comparação ao que está programado. Prová-lo será outra história e querer prová-lo uma outra ainda. Ainda não sabemos qual vai ser o nosso desenvolvimento, qual o “passe de criatividade” (tipo passe de mágica) a utilizar para inserir o “Unschooling” no que é legal como Ensino Doméstico em Portugal. Ainda não sabemos. Sinto que ainda temos tempo, que podemos continuar a fazer tudo sem fazer nada, que é o que nos faz sentido.
meninheira disse,
Abril 25, 2009 @ 4:56 pm
Olá
Nós também é que levamos um tempo sem “fazer nada” ou fazendo bem pouco
Uma pergunta, o dito curriculo do 1º ano para cantos anos é? para 5 anos? estou ja a dar-lhe voltas à cabeça com o curriculo para o ano é estou ja meio louca!!
DD
Um beijinho grande
meninheira disse,
Abril 25, 2009 @ 5:00 pm
(vou ativar
isabeldematos disse,
Abril 25, 2009 @ 7:36 pm
Normalmente a idade em que se entra para o primeiro ano, cá em Portugal, é aos 6 anos (as crianças que fazem os 6 até ao dia 31 de Dezembro, como foi o caso da minha filha do meio, podem entrar com 5 e acontece frequentemente as crianças entrarem ainda com 6 e fazer logo os 7 em Janeiro, Fevereiro…).
Não sei se o vosso programa curricular será parecido com o nosso, quando o leres diz alguma coisa…
Beijinhos
Isabel
meninheira disse,
Abril 25, 2009 @ 8:16 pm
É mesmo como na Espanha, aínda que a maior parte (99′9%) dos meninos entram com 3 anos, nao é até os 6 que começa a obrigatoriedade do ensino.
O curriculo nosso nao sei como é, eu faço um pouco ao meu gosto e depois também olho para os USA. Polo que eu vejo nos blogs das escolas espanholas, é muito básico: com 3 anos teem que aprender até o 3, com 4 anos até o número 4,…
Como autoevaluaçao sempre é que lhe boto uma olhada à programaçao da filha do “cuatro en familia”.
Beijinhos Isabelinha
Rute disse,
Abril 26, 2009 @ 9:45 am
Olá Isabel,
gostei muito deste paralelismo que fizeste a respeito do alimento para o cérebro.
“A nossa tarefa é apenas garantir que ela tenha alimento. Manter a curiosidade das crianças devidamente alimentada não significa alimentá-las ou dizer-lhes o que devem comer. Significa pôr ao seu alcance a mais ampla variedade possível de bons e bastantes alimentos, algo como levá-las a um supermercado sem “comida de plástico” – se é que é possível imaginar algo assim.”
É importante manter a informação disponivel e acessivel para alimentar a curiosidade inata das nossas crianças. Pois elas só aprendem quando têm interesse por isso. Não vale a pena forçar ou impor uma hierarquia de conhecimento pois todos os assuntos têm links para diversas aprendizagens. Uma simples brincadeira pode ser um terreno fertil para desenvolver várias apetências.
O que estraga tudo é em Portugal só existir homeschooling e não Unschooling. A aprendizagem inata entra em conflicto que a obrigatoridade de prestar provas.
Beijinhos.
isabeldematos disse,
Abril 26, 2009 @ 10:01 am
Bom dia, Rute!
Não fui eu que fiz esse paralelismo, foi o John Holt (está na parte entre aspas que é a que eu transcrevi).
Quanto ao facto de em Portugal só existir legalmente o Homeschooling, tens razão, mas há sempre umas maneiras, pois podes, pelo menos para já, seguir o Unschooling até à altura dos primeiros exames e depois arranjar uma solução…
Beijinhos
Isabel
Paula disse,
Abril 26, 2009 @ 3:19 pm
Que tristeza ver a Federação Naciuonal de Professores defender a obrigatoriedade de frequência do ensino pré-escolar!
Paula disse,
Abril 26, 2009 @ 3:23 pm
E quando a sujeitar crianças e jovens a avaliações contínuas e exames com regularidade, que crueldade!
Lara disse,
Abril 27, 2009 @ 9:20 am
Olá Isabel,
Gosto sempre muito do que escreves e gosto de saber das experiências dos outros nesta grande e maravilhosa aventura, que podia ser ainda melhor se a lei assim o permitisse. E é verdade, quando nos damos conta, eles já aprenderam tantas coisas!
Beijinhos
isabeldematos disse,
Abril 27, 2009 @ 2:54 pm
Obrigada Paula e Lara pelos vossos comentários! Também gosto muito de ler as vivências e as reflexões que vocês partilham!
Muitos beijinhos
Isabel
celia disse,
Abril 27, 2009 @ 9:11 pm
olá!
esta foi minha primeira visita ao seu blog e fiquei encantada.
estou no brasil, sou pedagoga e meu filho de 5 anos não quer mais ir à escola. isto me coloca a questão da educação doméstica.
aqui não existe legislação que apoie o homescholling e esta é a primeira vez que ouço o termo unscholling. tenho muito o que aprender!!! que beleza!
agradeço muito por divulgar o seu trabalho!
isabeldematos disse,
Abril 27, 2009 @ 10:37 pm
Olá, Célia, obrigada por escrever aqui neste blogue!
Ainda bem que a partilha das nossas vivências é, de alguma forma, útil.
Eu gosto muito de ler sobre as experiências das outras famílias que praticam o ensino doméstico. Por exemplo, em Espanha, também não existe ainda legislação que apoie o ensino doméstico, mas há muitas famílias que o praticam, assim como no Brasil.
Aqui em Portugal, a legislação prevê o ensino doméstico (homeschooling), mas a filosofia inerente ao “unschooling”, a dada altura, não consegue enquadrar-se na legislação.
Obrigada pela sua visita e disponha sempre. Pode escrever para o e-mail indicado na página “Bem Vindos”, na barra superior do blogue.
Um abraço
Isabel
Patrícia disse,
Abril 29, 2009 @ 12:15 pm
“Finalmente, quando seguem as suas próprias intuições, o seu próprio “faro”, aprendendo o que estão curiosas por aprender, as crianças são mais rápidas, conseguem percorrer um território mais vasto do que o que jamais sonhámos para elas, muito mais vasto do que o que poderíamos levá-las a percorrer.”
É bem verdade, por vezes eu fico “à nora” a tentar entender o que a minha filha quer dizer… e só lhe digo: “A mamã não percebe”. Alguns momentos depois lá se faz luz no meu espirito e vou eu, toda contente (e para a cabeça dela, com uma infinidade de tempo depois) dizer aquilo que ela me queria dizer.
Meninheira,
“com 3 anos teem que aprender até o 3, com 4 anos até o número 4,…”
Então, a minha filha está largamente à frente, com (quase) 2 anos ela já sabe contar até 7… Isto porque houve uma semana junto ao Natal que esteve sempre a chover e para a tirar do ambiente de casa eu resolvi levá-la para a escada do nosso prédio e andar a contar os degrau com ela… ela adorou e contava também… A partir dai, sempre que apanha degraus pela frente é vê-la (e eu também) a contar. Devo de dizer que o número que ela gosta mais é o quatro.
;o)
Unschooling « A Escola É Bela disse,
Junho 7, 2009 @ 12:49 am
[...] E “aprendem” seguindo os seus interesses, raciocínios, ramificações dos vários assuntos conforme lhes surgem, ligações que fazem (porque está tudo interligado, de facto, a existência é una…); (posts I, II e III) [...]