Olá crianças crescidas!
Voltamos ao tema do que gostamos de fazer…
Quando era pequena gostava de fazer muitas coisas das mais variadas áreas e gostava de saber quase tudo. Como tinha as tais “notas altas”, sem fazer nenhum “esforço”, na altura de escolher que curso seguir tive algumas dificuldades, porque havia vários, ou melhor muitos, que me pareciam ser um curso que eu gostaria de frequentar. Na altura, os testes psicotécnicos em nada ajudaram. Deram como resultado uma panóplia de cursos que eu poderia seguir sem dificuldade, mais ou menos os mesmos do leque de escolha construído por mim. Aconteceu algo parecido este ano com a nossa filha Celina. Também para ela os testes psicotécnicos de pouco serviram, no entanto conheço jovens que os fazem e os ajudam de certo modo. Com ela já tive outro tipo de conversa, baseada naquilo que vou dizer a seguir, sabendo, no entanto, que a estrutura socio-económico-cultural destes “tempos” (e deste País) não facilita muito…
A primeira vez que me pus a reflectir neste assunto do exercer de uma profissão foi num dos workshops do Robiyn, quando ele falou que o natural seria nós termos mais de uma profissão ao mesmo tempo (claro que a tal estrutura socio-económica teria de ser outra). Dado “os meus antecedentes”, que expus acima, isto fez-me todo o sentido.
Mais tarde (uns bons anos depois…), por indicação de um formador (de informática, vejam!), num curso de formação facultado pelo município para o qual trabalho, li o livro “O Papalagui” (já tinha ouvido falar nele, mas nunca o tinha lido), onde este “hábito”/estrutura de cada um com o seu ofício está muito bem caricaturado (o meu livro é da editora Antígona). É um livro pequeno, lê-se rapidamente.

Para quem nunca leu, o livro consta de discursos proferidos por Tuivii, chefe de tribo de Tiavéa nos mares do Sul (Polinésia) compilados por Erich Scheurmann e publcados pela primeira vez na Alemanha, em 1920. Os discursos são proferidos pelo chefe da tribo aos seus compatriotas polinésios, após contacto com os europeus, falando sobre a “bizarria” dos costumes do “Papalagui” (o Branco, o Senhor). São vários os temas, mas o que entra aqui neste contexto de uma só profissão é o discurso ” Das profissões do Papalagui e da confusão que daí resulta”. Vou só pôr aqui uns pequenos excertos para terem uma ideia (o melhor é ler-se o livro…
):
“Todos os Papalaguis têm uma profissão. É difícil explicar-vos o que isso é. É qualquer coisa que uma pessoa devia ter vontade de fazer, mas que raramente tem. (…)
Se o Papalagui mais tarde se der conta de que prefere construir cabanas a tecer esteiras dizem: “Enganou-se na profissão!” o que equivale a dizer “Aquele falhou o alvo!” (…)
O Papalagui transforma tudo quanto o homem é capaz de fazer numa profissão. Quando um branco diz: “Sou tussi-tussi!” (Nota: tussi – carta; tussi-tussi – escrivão público), isso é a sua profissão; não faz outra coisa que não seja escrever cartas umas atrás das outras. Não é ele que enrola a sua esteira e a prende numa trave, não é ele que vai à cabana-cozinha cozer um fruto, não é ele também que lavará a sua malga. Come peixes, mas não vai à pesca, come frutos, mas nunca os apanha; escreve tussi atrás de tussi, pois tussi-tussi é a sua profissão. Da mesma maneira, todos aqueles actos são outras tantas profissões: enrolador e arrumador de esteiras, cozinheiro de frutos, lavador de malgas, pescador de peixes, colhedor de frutos. Só a profissão confere a cada um o direito de exercer uma actividade. Assim se explica o facto de a maior parte dos Papalaguis apenas saber fazer o que constitui a sua profissão. (…)
É raro que um Papalagui adulto saiba ainda dar cambalhotas ou fazer cabriolas como uma criança. Ao andar arrasta o corpo como se houvesse alguma coisa a entravar-lhe os movimentos. Nega ele que isto seja uma fraqueza e pretende que correr, dar cambalhotas ou fazer cabriolas é contrário à dignidade de um indivíduo que se preze. Mas é uma explicação falsa, esta; na realidade, os seus ossos endureceram e tornaram-se rígidos e os músculos perderam toda a sua flexibilidade, pois a profissão dele os condenou ao sono e à morte. (…)
É agradável ir buscar água à ribeira uma ou várias vezes ao dia; mas quem tiver que ir buscá-la todos os dias e a todas as horas, desde o nascer ao pôr-do-sol, até as forças o abandonarem, quem vai e torna a ir, sem descanso, à ribeira, acaba por atirar, de raiva, o cântaro para bem longe, a fim de libertar o corpo de tais cadeias. De facto, nada há de mais penoso para o homem do que fazer sempre a mesma coisa. (…)
É por isso que os indivíduos de diferentes profissões se odeiam ferozmente uns aos outros. Há, no coração de todos eles, a modos como que um animal preso que se encabrita sem nunca conseguir soltar-se. Ficam todos roídos de inveja e de ciúme ao compararem a sua profissão com a dos outros; pois eles estabelecem uma diferença entre profissões nobres e profissões baixas, se bem que todas as profissões não passem, no fundo, de actividades parciais. Com efeito, o homem não é constituído unicamente por uma mão, um pé ou por uma cabeça: ele é isso tudo ao mesmo tempo. Mão, pé e cabeça foram feitos para estarem juntos. Um ser humano saudável sente-se realmente feliz quando todas as partes do seu corpo vivem em harmonia com os seus sentidos, e não quando apenas uma parte do seu corpo vive, e todas as outras estão mortas. Isso perturba, desespera e faz uma pessoa adoecer. (…)
O Grande Espírito não quer, de certeza, que nos tornemos cor de cinza por causa da profissão, que nos arrastemos como uma tartaruga ou rastejemos como um molusco do fundo do lago. Quer ver-nos, isso sim, firmes e altaneiros em tudo quanto fizermos, sem nunca perdermos a alegria do olhar e a agilidade dos membros.”
É engraçado o livro. A nossa filha Catarina é que, no fim de lê-lo disse que quando lê estes livros que apelam uma “sociedade” mais “natural” e com um pouco mais de sentido fica com vontade de ir viver para bem longe das cidades. Digo-lhe a brincar que se quiséssemos ter nascido numa tribo como a d’ “Os Deuses Devem Estar Loucos”, tínhamos nascido; que se optámos por nascer por aqui por alguma razão terá sido, quem sabe mudarmos algo em nós e ajudarmos a mudar qualquer uma das coisas que não fazem sentido para nós. Para mim faz mais sentido sentir isto assim do que pensar que somos vítimas de que circunstância for…
Também no livro de Marlo Morgan, “Mensagem do Outro lado do Mundo”

onde ela, americana, médica de profissão (!
), relata a sua viagem à Austrália e a sua experiência junto de um povo arborígene, há passagens muito giras tais como as que explicam que os membros desse povo até unem o nome próprio ao seu “ofício do momento” e que, por isso, quando passam a exercer outro dos seus talentos mudam de nome, adequado à nova “profissão”. Vou só deixar aqui duas passagens do livro:
” (…) Ooota disse qualquer coisa ao grupo e cada pessoa me disse qualquer coisa. Estavam a dizer-me os seus nomes. As palavras eram muito difíceis para mim mas, felizmente, os seus nomes tinham significado. Os nomes não são usados da mesma forma como nós usamos “Debbie” ou “Cody” nos Estados Unidos, pelo que podia relacionar cada pessoa com o significado do nome, em vez de tentar pronunciar a palavra em si. Todas as crianças recebem um nome quando nascem, mas parte-se do princípio de que, à medida que uma pessoa cresce, o nome de nascimento fica desactualizado e as pessoas escolhem, para si próprias, uma saudação mais adequada. Quando tudo corre bem, o nome de uma pessoa muda várias vezes pela vida fora, à medida que a sabedoria, a criatividade e os objectivos se definem mais claramente com o tempo. O nosso grupo incluía Contadora de Histórias, Fabricante de Ferramentas, Guardadora de Segredos, Mestra Costureira e Grande Música, entre muitos outros. (…)
(…) No fim do nosso festival, os instrumentos foram novamente colocados no sítio onde tinham sido encontrados. As sementes foram postas na terra para se desenvolverem novamente. Foram pintados sinais na parede da rocha, indicando a colheita disponível para os viajantes seguintes. Os paus, o ramo e as pedras foram abandonados pelos músicos, mas a alegria da composição criadora e o talento ficaram como confirmação do valor e da auto-estima de cada pessoa. Um músico transporta a música dentro de si. Não precisa de um instrumento específico. Ele é a música. Nesse dia, pareceu-me que aprendi também que a vida é um auto-serviço. Podemos enriquecer as nossas próprias vidas, dar a nós próprios e ser tão criadores e felizes quanto o permitirmos a nós próprios ser. O compositor e os outros músicos afastaram-se de cabeça erguida. _ Óptimo concerto _ comentou um dos músicos. _ Um dos melhores_ foi a resposta. Ouvi o indivíduo distinguido dizer: “_Acho que, não tarda muito, vou mudar o meu nome de Compositor para Grande Compositor.” Não era um ego inchado que eu estava a observar. São apenas pessoas que reconhecem os seus talentos e a importância de partilhar e desenvolver as inúmeras maravilhas que nos são concedidas. Existe uma ligação importante entre o reconhecimento do valor próprio de cada um e a celebração da atribuição pessoal de um novo nome.”
Adorei ler este livro. Numa caminhada através do deserto australiano a passo e passo na companhia deste povo arborígene, nómada, Marlo Morgan percebeu muitas coisas das que são verdadeiramente essenciais e naturais, de forma a transformar a sua vida.
Entretanto, também ouvi o presidente do projecto dna-cascais, no seu discurso de abertura a uma das apresentações dos projectos elaborados por jovens empreendedores, participantes do concurso “escolas empreendedoras”, (o projecto dna incentiva o empreendorismo, sobretudo direccionado para a população jovem, mas não só), dizer algo como: “Antigamente, o usual era ter-se um emprego para toda vida. Na minha geração, já se começou a mudar de emprego e uma só pessoa começou a ter dois ou três empregos durante a sua vida. A geração que hoje está a ponto de iniciar a sua carreira profissional vai começar a ter, não só mais do que um emprego, mas sim exercer mais do que uma profissão ao longo da vida…”
Pronto, vão acabar-se os tempos de uma só profissão…
Claro que sempre houve pessoas a exercer mais do que uma profissão… ainda aqui há tempos uma das minhas cunhadas me contava que a ” sua esteticista” (com quem vai fazer a depilação) faz regularmente esse trabalho, dá aulas a crianças numa escola de aldeia (porque gosta de escolas mais pequenas) e é pintora (portanto, exerce três profissões ao mesmo tempo) e que costuma dizer que não sabe como é que as pessoas não se cansam de fazer sempre a mesma coisa, que ela adora fazer o que faz nesses seus três trabalhos…
Por outro lado, muitas mulheres que são mães e donas de casa para além da sua sua “profissão” remunerada, também têm três “profissões” (ou mais!), o que normalmente não é reconhecido nem apoiado por parte das instituições sociais.
Da nossa parte, estamos dispostos a aproveitar a possibilidade do ensino doméstico em Portugal, mesmo fazendo uma ginástica considerável para gerir tempos, dinheiros, recursos, actividades, possibilidades, porque sentimos que vai ser bom… para todos.
E também, cada um à sua maneira, vamos fazendo algumas das coisas que gostamos e com vontade de descobrir como fazer mais e melhor.
Uma bela semana, até breve… (dia 18, Quarto Minguante!)
Caderno Verde
Jogos de consola
Quando se tem em casa “meninos crescidos” que sempre gostaram de jogar através das consolas de jogos, é um pouco difícil afastar o mais pequeno dessa prática.
São os argumentos de que não faz grande coisa (à saúde, à socialização, etc.) passar-se muito tempo frente a um écran (adicionado ao tempo que ainda se passará a ver desenhos animados e filmes) versus os argumentos de que, bem direccionada a actividade, ajuda a desenvolver certas capacidades. Se bem que eu e o Pedro sempre estivémos de acordo quanto a não termos em casa brinquedos e jogos bélicos e reduzirmos ao mínimo o lado competitivo dos jogos e de certas actividades, incluindo as desportivas.
Assim, o Alexandre ainda se manteve um pouco afastado dos jogos de Playstation, mas agora com a Wii… lá vieram os argumentos da maior interactividade, do movimento, etc., etc. (para quem não está familiarizado – e eu também não o estou!
- , alguns jogos para a Wii, como os desportivos, por exemplo, implicam uma certa pose e movimento por parte dos jogadores. E ao jogar pela primeira vez o jogo de bowling e de golfe, o Alexandre mostrou-nos que tem uma grande pontaria e jeito para acertar com a bola…




Ele já me tinha dito um dia que “era bom” a jogar com as bolas, mas eu não liguei muito pois ele nunca gostou muito de jogar nem ver jogos de futebol (aqui em Portugal, falamos em bola, falamos em futebol!
). Nesse dia apercebi-me que de facto ele tinha razão, e a partir daí passou a ter gosto por jogar um jogo de bowling (pinos e bolas de borracha) que já lhe tinham oferecido há uns tempos e nunca tinha jogado e quem sabe não gostará mais tarde de experimentar o golfe “real” ou o bowling, quando tiver peso suficiente para não ir juntamente com a bola até aos pinos!
A Wii também satisfaz as delícias das meninas (sobretudo a mais velha) que adoram criar os bonecos participantes dos vários jogos (escolhe-se o tipo de cara, de olhos, de cabelo, sobrancelhas, cor dos mesmos, roupa, altura, nome…) e os entusiastas dos jogos de música (os de cantar, os de tocar, os de dirigir uma orquestra e até formar uma banda(!)) e ainda os entusiastas do yôga e do fitness.
Está claro que não é a mesma coisa que praticar as actividades “verdadeiras”, mas animam reuniões e festas, e a nossa casa tanto vêm os amigos artistas (ele são cantores, actores e actrizes, músicos, bailarinos…), como os desportistas… (também vêm , os vidrados em informática e em electrónica). A nossa é uma casa cheia!