Seguindo os seus interesses

Bom dia!!!

Ainda outro dos aspectos que muito me interessou relatado por John Holt: “o fio”, as relações, como de um tema se passa para outro seguindo os seus interesses e sendo as crianças a conduzi-los (e não nós, pais ou educadores).

Ao ler dois dos exemplos que John Holt dá, isso ficou muito claro para mim, para além de serem exemplos deveras interessantes.

Como este exemplo de uma criança que se interessava muito por electrónica e apenas partindo desse seu interesse aprendeu a ler a um nível médio e conceitos de matemática muito para além dos adquiridos por crianças da sua idade em escolas usuais:

(Do livro “Como As Crianças Aprendem”, de John Holt):

“Transcrevo a seguir a carta de uma mãe cujo filho está numa escola onde as crianças não são obrigadas a assistir às aulas, mas aprendem quando e o que quiserem, com a ajuda – que podem solicitar quando sentirem necessidade – de qualquer pessoa mais velha que esteja por lá. O menino que tinha tido muita dificuldade numa escola convencional e que ainda não aprendera a ler, foi para lá aos 7 anos. Dois anos depois da sua chegada à escola, a sua mãe escreveu:

             Até o mês passado, pouco mais ou menos, ele ainda não tinha assistido a nenhuma aula (…) mas, tendo sido submetido às provas gerais (uma espécie de prova aplicada pelo Estado para verificação da aprendizagem dos alunos das escolas do país, N. do T.) e a testes de QI, descobrimos que ele, estudando conceitos de electrónica e de várias outras áreas tecnológicas que não são oferecidas em escolas públicas nem mesmo a alunos do ensino médio, se tornou capaz de ler como um estudante do 1º ano do ensino médio e tem conhecimentos matemáticos de uma criança do 8º ano.

A electrónica dá uma pista sobre como esse aparente milagre se realizou. Não existem textos, manuais ou livros didácticos escritos para crianças a respeito do assunto. Para usar os que existem, devemos ser capaz de ler e entender palavras como resistência, condensador, potenciómetro e semelhantes. Sem dúvida esse menino teve que ser auxiliado no início, mas, ao aprender a ler e compreender a terminologia básica da electrónica, certamente acumulou informações suficientes sobre letras para que se tornasse capaz de ler quaisquer outras palavras que encontrasse pela frente. Para trabalhar com electrónica é preciso saber também aritmética, decimais e potenciação, logo, teve que aprender estes assuntos também, juntamente com electricidade e circuitos eléctricos.”

E este outro exemplo, muito interessante e elucidativo:

” Professores de estudos sociais perguntaram-me certa vez, num encontro, como os alunos poderiam descobrir e aprender independentemente assuntos da sua disciplina. Como parte da resposta, contei-lhes algumas histórias. A primeira é sobre um menino de 7 anos. Um dia viu e leu, acho que na National Geographic, um artigo sobre mergulho submarino. Como a maioria das crianças, tinha muito interesse por equipamentos de mergulho e tinha mais interesse ainda nos peixes variados e coloridos que os mergulhadores estavam a ver e a capturar. Interessava-se, na verdade, pela ideia de um mundo submarino com uma vida própria. Entusiasmado, falou com a sua mãe a respeito do artigo. Passado pouco tempo a sua mãe encontrou outro artigo sobre mergulhadores. Nesse, no entanto, não mergulhavam à procura de peixes, mas de tesouros – vasos, tigelas, ferramentas e armas – que jaziam ocultos nas profundezas do mar, no bojo de um navio que havia naufragado no Mediterrâneo há três mil anos atrás. Tudo nessa história fascinava o menino, sobretudo a ideia de que esses objectos estranhos e belos tinham estado submersos, ignorados e esquecidos por tanto tempo. Ficou interessado nas civilizações pré-homéricas de Creta e de Micenas, que haviam produzido aqueles tesouros. Adultos prestáveis encontraram alguns livros sobre o assunto e ofereceram-lhos. Ele leu-os. Neles, mencionavam-se Homero e a Guerra de Tróia o que o levou a ler algumas versões adaptadas da Ilíada e da Odisseia. Em dado ponto das suas leituras, encontrou uma menção às sete cidades de Tróia e a Schliemann, o arqueólogo que as desenterrou. Ficou fascinado com a ideia de que uma cidade inteira pudesse simplesmente desaparecer sob o chão, que outra cidade fosse construída sobre ela e que isso pudesse acontecer sete vezes! E ficou igualmente fascinado com a ideia de trazer à luz novamente essas cidades enterradas. O que fez com que quisesse descobrir tudo o que estivesse ao seu alcance sobre arqueologia. Quando ouvi falar dele pela última vez, andava a ler tudo o que chegasse às suas mãos sobre o assunto.

As histórias seguintes são sobre uma escola rural de uma única sala… ” 

(continua para a próxima semana!!!)

De facto, a aprendizagem dirigida pelas próprias crianças e jovens, seguindo os seus interesses, é uma característica da filosofia inerente ao Unschooling preconizado por John Holt.

E todos nós que enveredarmos por esta prática com as nossas crianças, vamo-nos apercebendo desta característica tão flexível, variada e interessante, como já a Ana exemplificou nestes dois posts que escreveu para o Pés Na Relva:  “O Ensino Doméstico É Como As Cerejas” e “Dentes-de-Leão de Todas as Cores”.

No Caderno Verde de hoje também vou deixar um apontamento ligado a este tema.

Uma bela semana para todos! Até dia 17, Quarto Minguante.

 

Caderno Verde

Do Teatro às Naves Espaciais,

passando pela Reciclagem 🙂

Mais uma vez, algo para ilustrar o que disse acima:

Desde pequeno que a Catarina leva o Alexandre a ver os contos interpretados e as peças infantis, nas quais ela participa como actriz. (Ele vibra com certas personagens do conto/peça de teatro  “O Reino de Pernas P’ro Ar”, do Espaço Cativar, que é um conto sobre música: com o conde desafinado e o artista italiano – a irmã interpreta as duas personagens; chegam a casa e ele pede para ela repetir vezes sem conta as vozes com que ela interpreta esses dois personagens e as brincadeiras inerentes… ri-se até fartar).

Depois, ao ver a peça “Os Pólos da Nossa Terra”, também do Espaço Cativar, na sua versão adaptada para as campanhas de sensibilização da EMAC sobre a importância da reciclagem, logo se “apaixonou” pelo novo personagem que nesta versão substitui a Aurora, o Mac (a mascote da EMAC, que conseguem ver no site, do lado direito) que tem, na net, o seu clube, “O Clube do Mac”.

Praticamente todas as vezes que esta versão adaptada dos “Pólos da Nossa Terra”  foi apresentada, o Alexandre foi comigo vê-la. E em casa pede muitas vezes à irmã “para ela ser o Mac” (que é como ele vê esta história da representação… 🙂  ). E desde aí que passa tempo à  volta do tema da reciclagem.

De forma que, quando apareceu nos cinemas o filme “Wall-E“, a irmã resolveu levá-lo ao cinema ver o filme, já que tinha algo a ver com Reciclagem.

Bem, foi nessa altura ver o filme ao cinema umas três vezes (com pessoas diferentes!   🙂  ). E foi então que começou a sua paixão por naves espaciais e pelo próprio espaço. A primeira frase sobre isso foi um “segredo” que me veio dizer, muito baixinho ao ouvido:  “Mãe, para irmos para outro planeta temos de ir de nave espacial…” – o que tem a ver com o seu já “antigo” interesse pelos meios de transporte em geral.

E aqui estão as “construções” das primeiras naves, cujas fotos já tenho colocado noutros posts aqui n’A Escola É Bela” e no “Pés Na Relva”:

A 1ª nave, tipo a do Wall-E, “construída” em cartolina:

dsc00473dsc00474A pesquisa, em livros cá de casa e a percepção de tipos de naves diferentes, “Space Shuttle” e “Apollo” e a confirmação vendo filmes como o “Apollo 13”:

dsc00769dsc00771dsc00773Consultando os livros e vendo os filmes, o fascínio pelo momento do lançamento:

ap8ksc68pc327_1280x1024A construção de nova nave, “tipo Space Shuttle”, com cartão e fita adesiva e a simulação de repetidos lançamentos, usando sons, vibrações e todo o aparato… 🙂

dsc00765dsc00767A transformação de um antigo estojo de lápis, num foguetão (com este a simulação do lançamento era mais real, pois podia ir “perdendo pedaços” (soltando os módulos) pelo caminho! 🙂  :

dsc007871dsc00788Visitar exposições sobre o espaço e naves espaciais (a do centro de Ciência Viva da Amadora, “A Aventura Espacial” – ainda não a visitámos propriamente, só o exterior e comprámos lá o brinquedo, pois já lá fomos duas vezes e das duas a exposição interior não estava disponível ao público em geral – e a do Pavilhão do Conhecimento, no Parque das Nações, “Espaço, a Última Fronteira“, da qual não tenho fotos , pois não fui eu que o levei à exposição, foi o seu amigo Bato):

dsc008041dsc00808dsc00819A pintura:

dsc00920dsc00923A contagem decrescente (10, 9, 8, ….2, 1, Pfuuuurrhhh (o lançamento!) ), em português e em inglês (devido aos filmes!)

E agora, como anda muito virado para as construções em lego e ganhou umas peças novas, as naves espaciais em lego (inventadas por ele):

dsc01042dsc01043

… Ainda é hoje em dia um tema presente.

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13 Respostas so far »

  1. 1

    meninheira said,

    Eu fico abraiada com a creatividade e bom fazer do teu menino, mas cantos anos é que tinha??? :O

  2. 2

    isabeldematos said,

    Agora tem 5 e oito meses, as primeiras coisas foram feitas ainda o ano passado, com 5 e pouquinho, algumas antes dos 5 e ir ao teatro já vai dede os 2 e meio, 3; as pinturas e os trabalhos manuais são feitos com ajuda, claro, os legos é que faz sozinho, tem muito jeito; sabes que ele vê documentários de construções de torres e de túneis, no National Geographic, como se estivesse a ver desenhos animados, adora aquilo, até me empurra para eu sair da frente e depois olha para imagens (na televisão, nos livros, no computador…) e diz:”Vou construir uma igual àquela!”, e vai olhando para a imagem e vai construindo, a inventar um pouco, claro, com as peças que tem; quando acaba, não está parecido, a imagem foi uma referência, mas se virmos aquilo “com olhos de ver” reparamos em cada pormenor que pensamos “Como é que este pequeno se foi lembrar disto”?
    Gosta disto.
    E tanto o pai como eu costumamos incentivá-lo a pensar numa solução, para qualquer coisa (mesmo para quando tem “problemas de relação” com quem esteja a brincar, quando um quer brincar de uma maneira e outro de outra e entretanto já se aborreceram um com o outro, por exemplo…) e então é costume ouvi-lo dizer “Então, qual é a solução? Uma solução pode ser…”

    Obrigada pelo comentário, Meninheira, eu ponho aqui estas coisas, porque de facto tenho constatado que se nos formos guiando pelos interesses deles, abrange-se várias coisas diferentes e muitas matérias, muito embora nos pareça que os temas são sempre os mesmos, pois eles vão pulando e assimilando e juntando mais coisas, sem perderem o entusiasmo!

    Beijinhos
    Isabel

  3. 3

    meninheira said,

    Tens muita razao!! os blogs servem-nos de guia para as o utras maes, de inspiraçao,… e de admiraçao!! 5 aninhos!! meu deus!!

    Um beijinho Isabelinha e boa Pascoa 🙂

  4. 4

    Patrícia said,

    “(continua para a próxima semana!!!)”

    A criança que há em mim não gostou, absolutamente, nada!!!

    Tenho de ficar à espera UMA semana inteirinha? Óóóóóóóóóó…

    ;o)

    A minha filha, para além de “quim-boios”, também ADORA “aião” (traduzinho = avião) e sempre que vê um diz “aião” e lá vou eu, quase sempre a conduzir, tentar ver a onde é que ela viu o “aião”… por vezes são os piupius…

    Uma ideia: Que tal fazerem, caso tenham um espaço para plantar, uma plantação de morangos; mas dos verdadeiros! Eu ainda me lembro de ser pequenina e estar sentada no chão com o meu irmão à espera que os morangos ficassem vermelhos e prontos a comer… sabiam tão bem… pequeninos… mas tão saborosos…

    Se não tiverem um espaço onde plantar também não faz mal, podem sempre plantá-los em vasos… Eu tenho um morangueiro em vaso… só não sei se vai dar morangos verdadeiros ou “daqueles estufados”, que de sabor nada têm… A ver vamos.

    Beijos

  5. 5

    isabeldematos said,

    Obrigada pelos comentários e sugestões!!! Boa Páscoa também para todas.
    Beijinhos
    Isabel

  6. 6

    Rute said,

    Ai Amiga,

    já estou tão cansada, hoje, de seguir os interesses da Carolina 🙂 Esta miuda dá cabo de mim :-S

    Bom mas fizemos uma actividade muito gira, esta manhã, graças a uma ideia da Pequete:

    Estive com a Carolina, a desenhar, lado a lado, um cenário montado pelas duas.

    Pegámos num “bébé” (boneco) dela, colocámos um biberão dum lado, uma chupeta do outro e uma caixa de música em cima, e estivemos a observar e a desenhar.

    De seguida, pintámos, cada uma o seu desenho e agora estão os 2 desenhos expostos/colados à lateral do guarda-vestidos.

    Foi um momento bem passado, um tempo bem aproveitado, no qual ela esteve a desenhar algo que não veio da imaginação. Algo real e a comparar com o meu desenho, percebendo a disposição espacial dos objectos à direita, à esquerda, respeitando as cores do modelo original…

    Adorei esta experiência. Acabou por ser terapeutico também para mim que gosto de desenhar e de pintar. Foi um momento tranquilo 😀

    Mas isto de tentar conciliar os interesses dela com os nossos não é tarefa fácil !!! Especialmente porque ela acha que nós podemos estar a brincar com ela o dia inteiro e que não há obrigações de fazer comer e arrumar a casa (no minimo!).

  7. 7

    isabeldematos said,

    Isso é o que também nos acontece… 🙂

    Também gosto muito de desenhar e ainda mais de pintar, é mesmo terapêutico, como dizes, é uma das melhoras formas de relaxamento, para mim…

    Neste momento a actividade do Alexandre é medir: anda com uma fita métrica a medir tudo pela casa toda!

    Beijinhos
    Isabel

  8. 8

    Olá!

    Desculpem o atraso no comentário, mas mesmo assim não resisto em ler as vossas experiências de mães com 3 posts em atraso 🙂

    A experiência do desenho fez-me lembrar um cursinho de desenho a carvão que tirei agora no inicio do ano em que tinhamos sempre “modelos reais” para desenhar. É muito interessante pois faz-nos ver mesmo com atenção as coisas.

    Um dos primeiros exercicios que fizemos, que sugiro para as vossas crianças, é o “desenho cego”, ou seja, tentamos desenhar o objecto mas só olhando para ele, nunca para o papel, nunca para o nosso desenho. É muito giro, pois é como se nele estivessemos a tocar, temos de o sentir, não interessa o resultado no papel.

    Beijinhos

  9. 9

    Carla, muito obrigada pelo comentário e pela sugestão! Escreve sempre…
    Sabes, “conheci” a Rute no outro dia, adorei que nos encontrássemos, pode ser que qualquer dia também nos encontremos!
    Beijinhos
    Isabel

  10. 10

    Sim, claro Isabel, gostaria muito! Nós agora vamos estar menos tempo em Lisboa, continuando de todo o modo a vir para ver familia/amigos e consoante os trabalhos que houver.

    Vamos estar mais tempo em Sagres, onde temos a nossa casita, com umas saídas até ao Alentejo (Estremoz e Evoramonte). Se por acaso também deres alguma escapadela para alguns dos lados, é só dizeres 🙂

    Beijinhos
    até breve
    vou continuar a ler o resto dos posts em atraso 🙂

  11. 11

    […] ligações que fazem (porque está tudo interligado, de facto, a existência é una…); (posts I, II e […]

  12. 12

    […] Doméstico (Homeschooling) e John Holt“ “Aprender por Saltos“ “Seguindo os seus interesses“ “Seguindo os seus interesses II“ “Seguindo os seus interesses III“ […]

  13. 13

    […] já partilhadas sobre os seguintes temas: Cidades, Passeios, Uma semana na terra, Natal, Aviões, Naves Espaciais, Árvores, Comboios… Eu chamo-lhes “variações” e não “projetos” ou […]


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