Seguindo os seus interesses II

Bom dia a todos e continuando o tema da semana passada, pois não terminei as histórias de John Holt a ilustrar este aspecto tão interessante que as crianças percorrem quando podem “aprender naturalmente” (do livro “Como as Crianças Aprendem”):

“As histórias seguintes são sobre uma escola rural de uma única sala, em que ensinava a professora Júlia Weber, hoje Júlia Gordon.  (…)

As crianças da escola estavam em anos diferentes, do primeiro ao oitavo. A maior parte do tempo, por necessidade, trabalhavam sozinhas, independentemente. Noutras ocasiões debatiam coisas, como numa aula. Nesses debates muitas questões eram levantadas, e era hábito de Júlia Weber anotar muitas das questões não respondidas em grandes folhas de papel e afixá-las nas paredes, onde as crianças podiam vê-las e lembrar-se delas. Os alunos não tinham de encontrar respostas para aquelas questões que não eram currículo ou dever de casa. Mas eram livres para seguir aquelas que lhes interessassem particularmente. Algumas questões nunca eram respondidas. Outras cativavam a curiosidade da classe e levavam as crianças a descobertas de maior alcance.

Uma dessas questões surgiu num início de Primavera, quando as crianças se aprontavam para deixar as roupas de Inverno. As roupas precisavam de ser limpas antes de serem guardadas e alguém perguntou porque é que não podiam ser lavadas. Muitos sabiam que era porque a lã encolheria. Mas porque é que a lã encolhia, o que acontecia para que encolhesse? Ninguém sabia. Talvez descobrissem se pudessem ver a lã ao microscópio. Infelizmente, eles não tinham e não podiam dar-se ao luxo de comprar um. Sim, mas alguém poderia emprestar. Escreveram então uma carta – acho que para a universidade estadual -, pedindo que lhes fosse emprestado um microscópio e explicando para o que o utilizariam. Sempre que era necessário, as crianças escreviam cartas dessas. E, como a sua pequena escola tinha de pedir emprestada a maioria dos livros e dos equipamentos de que necessitava, elas passavam o tempo a escrevê-las.

Parece-me que aqui está a resposta a uma crença muito frequente nos tempos que correm, (…), de que precisamos ter escolas-fábrica gigantes, porque não podemos obter boa educação numa escola, a menos que ela tenha todos os equipamentos tecnológicos de última geração. Ao termos escolas ainda maiores, temos mais perdido que ganho qualidade, e o pouco que ganhamos com todos esses materiais e equipamentos caros poderíamos ganhar de outra forma. Deveriam existir, como já existem nalgumas partes do país, bibliotecas centrais cujos livros e equipamentos pudessem ser emprestados, ou mesmo bibliotecas “ambulantes” e laboratórios que visitariam as escolas. Um dia, se superarmos essa crença de que grandeza em educação significa eficiência e qualidade, talvez possamos reavivar algumas dessas ideias.

De qualquer forma, o microscópio finalmente chegou. As crianças tinham tido muitas outras coisas em que trabalhar enquanto esperavam  por ele. Havia uma grande expectativa enquanto o desempacotavam, liam as instruções, aprendiam a usá-lo. Depressa estavam prontas para examinar algumas fibras de lã antes e depois de serem lavadas. Descobriram que as fibras têm articulações semelhantes às de um telescópio e que, por alguma razão, deslizam e se juntam quando a lã é lavada. Depois, tendo observado a lã, resolveram observar alguns outros tecidos como o linho, o algodão e a seda. Notaram a diferença entre as fibras e perceberam que a aparência das roupas depende do modo como são tecidas. Por sua vez, isso levou os alunos a interessar-se por tecelagem e, depois de um debate, decidiram que queriam criar alguns tecidos, usando os tipos mais simples de instrumentos de fiar. Mais cartas foram escritas e daí a algum tempo tinham tudo o que precisavam para fiar e tecer, começando com lã crua. Decidiram começar pela lã, porque era mais fácil de trabalhar usando instrumentos simples. Conseguiram a lã crua através de um vizinho que tinha ovelhas, depois lavaram, escovaram e fiaram. Alguém na turma pensou que poderia ser interessante descobrir quanto trabalho daria fazer um tecido. Decidiram registar o tempo gasto no projecto e para isso desenvolveram ou descobriram a ideia da hora-homem como uma unidade de trabalho, um conceito muito importante em economia.

Quando tinham acabado de fazer  um pequeno pedaço de tecido, os seus registos mostravam que tinham gasto 72 horas-homem. Setenta e duas horas para aquele pequeno pedaço de pano! Quanto tempo levaria a fazer um colete inteiro? O que levou a uma boa utilização da aritmética, além do trabalho de calcular a área de um objecto estranho como um colete. Quando descobriram quanto tempo demorariam para que, na velocidade delas, chegassem a um colete, ficaram intrigados ao pensar como pessoas como os primeiros colonizadores conseguiam arranjar tempo para fazer as suas próprias roupas. Começaram também a ver como era grande e verdadeira a necessidade de especialização do trabalho e de instrumentos especiais que permitissem a economia de esforços dos trabalhadores.

O projecto das roupas levou as crianças a uma grande variedade de direcções. Uma delas foi que quiseram tingir o tecido, então tiveram de pesquisar algumas tintas naturais, como eram feitas e como eram usadas. Como a maioria delas vem de plantas, isso levou os alunos à botânica. Fizeram algumas tintas e testaram-nas. Ficaram também interessados noutros tipos de tecidos de lã. O pedaço de tecido caseiro que fizeram não era muito parecido com as vestimentas que estavam acostumados a ver e a usar. O que causava a diferença? Quantos tipos de lã existiam? As crianças começaram a perguntar a todas as pessoas que viam a usar lã qual era o tipo de lã que usavam. Descobriram que havia muitos tipos. Alguém começou a anotar num mapa os tipos de animais que davam lã e as partes do Mundo em que viviam. O que as levou a perguntar-se e a debater o porquê de alguns tipos de lã custarem mais que outros. Depois de conversar e ler sobre o assunto, concluíram que tinha a ver com  o tipo de animal do qual a lã era extraída, a dificuldade de criação de cada um, a quantidade de lã que ele produzia, a dificuldade de transformar a lã em tecido, a distância a que se encontravam dos lugares em que a lã seria beneficiada e outros factores. Fizeram uma bela reflexão sobre aspectos de Economia e Geografia.

Ao mesmo tempo, os alunos ficaram interessados na diferença entre roupas de lã de flanela (que eu não conheço), no processo da tecelagem e na indústria têxtil. Puderam ver como máquinas melhores reduzem o preço da roupa. E quem inventou as primeiras máquinas? Para obter as respostas a tais perguntas, tinham de pedir livros à biblioteca do condado. O Dr. Gordon relatou-me que num ano a turma de 32 alunos pediu emprestados 700 livros. Descobriram que muitas das primeiras máquinas foram inventadas na Inglaterra. Porquê? Em parte porque lá já havia algum nível de divisão social do trabalho, de forma que os ingleses já estavam preparados para o modo de organização das fábricas. Como eram as fábricas? Visitaram então uma fábrica têxtil em Nova Jersey, leram sobre as primeiras fábricas e as condições de trabalho nessas fábricas, falaram sobre o efeito das máquinas no emprego, examinaram o efeito delas nos arredores das cidades, reflectiram sobre as organizações e a legislação trabalhistas. E por aí foram.

Bem, nem todas as crianças fizeram todas essas coisas. E, por outro lado, essas não foram todas as coisas que as crianças fizeram. Enquanto trabalhavam com essas questões, trabalhavam com muitas outras também. E embora seja verdade que apenas algumas crianças estivessem em condições de pesquisar, de facto, a invenção das primeiras máquinas de fiar, elas sempre podiam relatar às outras o que tinham encontrado, para que quase todas as descobertas fossem compartilhadas pelos alunos.

Vejamos outro dos seus projectos…”

 (continua para a semana!) 

E com este exemplo dado por John Holt no seu livro “Como As Crianças Aprendem” vos deixo por hoje, até para a semana, dia 25, Lua Nova!

 

Caderno Verde

Interesse por medir

O Alexandre, como a maioria das crianças, gosta de medir.

Não sei bem porquê, mas parece-me que sempre foi uma das matérias interessantes medirmos as coisas, lidarmos com os instrumentos de medir.

Lembro-me de ficar fascinada com uns púcaros de alumínio que a minha avó tinha, que mediam desde o litro ao centilitro e se encaixavam todos uns nos outros (quase como as bonecas russas!…   🙂   ). Ela deixava-me brincar com eles e eu passava tempos a encher de água desde o maior aos mais pequenos e a passar a água de uns para os outros e a perceber, fazendo, quantos centilitros cabiam num decilitro e por aí fora (os ditos púcaros tinham gravados nas “asas” a respectiva medida).

O Alexandre, como gosta de cozinhar e fazer bolos, desde cedo que mede “às chávenas”, “às colheres”, num copo medidor que serve para medir litros e gramas… (os púcaros de alumínio da minha avó eram mais interessantes porque passava o líquido de uns para os outros e comparava as medidas… e estava lá identificado, não havia dúvida, que quantidade cabia em cada púcaro).

Mas esta semana, andou todo entretido com uma fita métrica (já dantes a usara, mas como cordel para atrelar brinquedos uns aos outros tal carruagens entre si e à locomotiva!    😉    ).

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Desta vez, foi a propósito de andar a medir a sua altura. Temos na parede esta girafa:

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De vez em quando ele vai até perto dela para ver o quanto está crescido (eu não ligo muito a isso, mas eles ligam – ele e a irmã que colocou a girafa na parede…)! Ora a girafa caíu da parede e como começa aos 60 cm, tive que ir buscar uma fita métrica para medir os 60 cm a partir dos quais fixo o início da girafa… Aí o Alexandre percebeu para que servia aquela fita enrolada que dantes utilizava como fita-cordel e toca de pegar na fita e andar a medir tudo por toda a casa e a chamar-me, “mãe esta mede um 3 e um 2, é o quê?” (era 23…), “e esta é maior.” !!!

Parece-me que, à semelhança de outros interesses, tendo-se iniciado o “ciclo das medições”, isto se vai desenvolver por uns tempos.

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6 Respostas so far »

  1. 1

    valedegil said,

    Que curioso, Isabel, que tenhas aqui colocado um excerto do primeiro livro sobre homeschooling que eu li, mas mais do que isso, precisamente o excerto que me levou a dizer em voz alta para o lado: “Que pena que aqui não haja escolas assim, e não havendo, que pena que não se possa fazer homeschooling”. E então, li esta passagem ao Luís, e ele respondeu “Mas porque é que não se pode? Se calhar pode, nós é que não sabemos!”. E foi assim que começou tudo, cá em casa. Ele leu o livro a seguir a mim, e depois deste, vieram muitos mais, vieram as conversas com outras pessoas, e o e-mail para o Ministério da Educação, com a surpreendente resposta que sim, que se podia fazer ensino doméstico em Portugal. Impressionante, o poder de um simples livro…

  2. 2

    Patrícia said,

    ” (continua para a semana!) ”

    Mais uma semana à espera… ou talvez não… mais um livro (John Holt e “Como As Crianças Aprendem”) a comprar… talvez sim! ;o)

    Gostei muito de te conhecer…

    Beijos

  3. 3

    isabeldematos said,

    Eu também, Patrícia, obrigada!

    E, bem, Ana, a nossa experiência foi mais ou menos parecida com a vossa. Gosto de pensar que, quando algo faz sentido para nós, há formas de o concretizar; pesquisa-se, encontra-se e, estando receptivos a possibilidades, elas vão-se revelando (seja através de livros, conversas, um folheto informativo ou o que for…)

    Beijinhos a todos!
    Isabel

  4. 4

    Patrícia said,

    O Universo (ainda não encontrei melhor palavra) encarrega-se de nos dar a informação que procuramos se nos mantivermos receptivos… digo eu…

    ;o)

  5. 5

    […] que fazem (porque está tudo interligado, de facto, a existência é una…); (posts I, II e […]

  6. 6

    […] Holt“ “Aprender por Saltos“ “Seguindo os seus interesses“ “Seguindo os seus interesses II“ “Seguindo os seus interesses III“ “Representações, Abstracções, […]


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