Representações, Abstracções, Símbolos… Falar, Ler, Escrever

Olá a todos!

Este post de hoje vai iniciar outra série de posts dentro das características inerentes ao Unschooling, acentuadas por John Holt.

E é algo sobre o qual gosto muito de reflectir, porque nos abre as perspectivas, nos faz sair um pouco do que fazemos maquinalmente, nos faz colocar as coisas nos seus devidos lugares, sem exaltar ou diminuir a sua real importância.

Trata-se das formas que usamos para representar e comunicar a vida, o nosso Planeta, o que nos rodeia.

Começo pela linguagem (isto porque falar de representações e abstracções para nós é óbvio quando se tratam de desenhos, pinturas, peças de teatro, filmes e não tão óbvio em relação às que vamos falar nestes posts).

 A linguagem falada e escrita foi inventada pelo ser humano, a uma dada altura, no intuito de facilitar de algum modo a comunicação entre nós. Foram criados “códigos”. Os vários alfabetos, as várias línguas, idiomas, dialectos.

As palavras tendem a representar o que nos rodeia e os pensamentos que temos e cada vez que as ouvimos e lemos, tendem a formar-se na nossa mente imagens, imagens relacionadas com o que cada um já conhece, ou não farão sentido para nós. (As crianças aprendem a chamar pão a um pão, ao mesmo tempo que vêem esse pão à sua frente e quando ouvem palavras que não conhecem, perguntam-nos “O que quer dizer?” ).

Por outro lado existem os vários idiomas criados por nós; uma criança chinesa aprende uma palavra diferente que uma criança inglesa para representar ou referenciar a mesma coisa. E quanto à escrita, o mesmo se passa e ainda com mais nuances (os alfabetos, a sua forma, a sua organização nas páginas (da esquerda para a direita ou de cima para baixo ou…)).

Tendo isto presente, será mais fácil para nós entender “Como As  Crianças Aprendem”. Um pouco também como escrevi no post “Todas As Crianças São Cientistas“: “É como se imaginássemos aparecer aqui algum ser que viva numa outra civilização bastante mais desenvolvida não só em termos tecnológicos, mas em termos emocionais, de relacionamento entre os seres e outras características e, já que está aqui connosco, nesta Terra e civilização, entre estes seres “humanos” e demais seres que habitam este Planeta, e sendo da sua vontade connosco conviver e confraternizar, empenha-se fortemente em “conhecer” tudo o que se passa ao seu redor, as características naturais do local e dos seres que o habitam, as actividades que desenvolvemos e os conceitos que fabricámos (muitos deles nonsense :) …). Um pouco como quando nós próprios vamos viver para um país diferente (ainda que no mesmo Planeta!) e temos que (e queremos!) nos familiarizar com uma nova língua, novos hábitos e costumes, uma nova cultura, novo clima, novas paisagens!…”

Será também mais fácil desdramatizar o facto de que as crianças têm que aprender a ler e a escrever. Como diz John Holt, elas naturalmente aprendem quando rodeadas de coisas interessantes para ler e da necessidade de escrever mensagens, cartas, bilhetes, etiquetas, o que for (e vendo outros lendo e escrevendo e entendendo a finalidade disso).

E perceber que toda a lógica associada ao idioma praticado pela comunidade onde estamos inseridos pode ser uma “lógica pouco lógica”, pouco natural e de difícil entendimento por parte dos demais (sejam crianças ou não…), por isso as nossas crianças não têm dificuldades de aprendizagem, têm facilidade em descortinar outras lógicas que para elas fazem mais sentido, não têm déficites de atenção, têm a atenção focalizada noutros aspectos para elas muito mais interessantes (talvez ainda com a agravante que lhes tentam passar estes códigos e estas representações inventadas por outros sem sequer se darem ao trabalho de lhes mostrar o que realmente aquilo significa. E se experimentarem pedir a uma criança que invente um idioma, um código, verão a rapidez, facilidade com que inventam um).

Falaremos um pouco ainda deste assunto, para a semana, dia 9, Lua Cheia. Um belo feriado para todos!

 

Caderno Verde

Interesse pela escrita

Ultimamente o Alexandre tem revelado maior interesse pela escrita (nós pensávamos, como já disse no apontamento sobre os desenhos, sob o título “Aprender por Saltos”, que ele era “mais virado para os números”. E talvez o seja, o que não quer dizer que não vá, a dada altura, escrever, ler, sempre que veja nisso alguma utilidade e prazer).

Escrevi um pouco sobre isto neste post, no Pés Na Relva. E também nos apontamentos do Caderno Verde aqui d’A Escola è Bela, neste e neste outro.

Agora quero apenas acrescentar o seguinte:

Não sei bem porquê, no início quando começámos a pensar em adoptar o homeschooling, uma das coisas que eu pensava ser mais complicado de ensinar ao Alexandre era a leitura e a escrita. Isto porque não queria seguir o método tradicional e andei a estudar as vantagens do método global e a estudar sobre o próprio método, mas parecia-me então ser se calhar uma aventura adoptar um método com o qual eu não estava bem familiarizada.

Foi então que, conforme contei nos vários posts que fazem parte do ponto 2-Pesquisas, do Arquivo deste blogue que ao ler os livros de John Holt e a “filosofia” inerente ao Unschooling por ele preconizado, que comecei a ficar descansada quanto a isto, percebendo que não será preciso nada de complicado. E aos poucos fui-me soltando e fui apreciando o natural “desenrolar dos acontecimentos” não só quanto à escrita e à leitura como quanto a todas as outras matérias.

E também nos fomos apercebendo de certas particularidades que quero aqui partilhar com vocês:

Fará muito sentido insistir em “ensinar-lhes” a caligrafia que aprendemos na escola primária (então aquelas maíusculas todas rebuscadas que depois não vamos ver escritas em lado nenhum…) e que depois quando chegávamos ao ciclo (hoje 5º ano) já éramos dispensados de fazer? Parece-me que, no ensino doméstico, podemos muito bem “saltar” essa parte, até porque em tudo o que lêem impresso não se vão deparar com essas formas de letras e quando isso acontecer, creio que perceberão qual é a palavra em questão e chegarão à conclusão que aquele chapéu enrolado é um “T” e coisas que tais…

E em última instância, percebemos o seguinte: hoje em dia as crianças escrevem mais no computador, mesmo as “cartas” (os e-mails…), enviam mensagens por telemóvel, enviam postais electrónicos… a escrita “à mão” tem tendência a tornar-se numa pequeníssima parcela de acção do nosso dia-a-dia. Ainda a sentimos necessária (rabiscar à pressa um bilhete, preencher e assinar papelada (tarefa que com a “desburocratização” também se vai atenuar em breve), fazer anotações rápidas (enquanto não tivermos praticamente todos “palms” ou “hi-pods touch” como temos telemóveis))… vai ser difícil perpetuar o treino da caligrafia.

dsc00436

Nós já sentimos isto com o Alexandre e, concerteza, quem tem os filhos em ensino doméstico vai sentindo o mesmo. O Alexandre escreve muito mais a computador que à mão (assina os desenhos ou escreve simplesmente o nome;

dsc00813

nós vamos motivando a escrita “à mão”. Aqui há tempos, escreveu esta mensagem

dsc00960

para colocar à entrada da porta, porque queria que o seu amigo (que se tinha submetido a uma pequena operação ao dedo do pé) a lesse antes de entrar em nossa casa (está descrito no post “Manifestação de Carinho” que coloquei no Pés Na Relva), copiando o que eu escrevi, pois ainda não sabe escrever todas essas palavras; também acha piada “às pistas” que escrevemos “à mão” para alguém encontrar os presentes que escondemos, nos dias de aniversário ou outros dias em que se recebem presentes – excepto no Natal, no Natal não há pistas 🙂 ), no entanto, é cada vez mais difícil encontrar uma justificação plausível para a necessidade de escrevermos dessa forma, embora eu o faça muito, por prazer, porque sempre gostei de escrever e gosto de andar com o meu caderninho (só que eu ainda sou de outra geração 🙂 ).

Anúncios

5 Respostas so far »

  1. 1

    valebom said,

    Obrigada pelas tuas reflexões… Ajudam-me a também a refletir. 😉
    beijocas

  2. 2

    isabeldematos said,

    De nada! Obrigada também pelos comentários e opiniões que aqui vão deixando…
    Beijinhos
    Isabel

  3. 3

    Rute said,

    Este artigo está fantástico!

    Adorei o paralelismo que fizeste com os extra-terrestes e ainda com os imigrantes.

    Realmente é o que acontece, a necessidade de comunicar com os demais traça a forma como formatamos essa comunicação. E é a própria necessidade de nos exprimirmos e absorvermos a informação que nos leva a ir mais fundo no conhecimento.

    É o meio que nos molda, são as influências exteriores que nos motivam. Para quê obrigar a aprender? Se for de livre vontade é mais facilmente apreensivel.

    Brilhante! adorei o post! Beijinhos e desculpa a ausência. Não chego para as encomendas. Olha, se imaginasse que estávas curiosa pelo crudivorismo tinha-te perguntado se querias ir comigo. Fui sozinha no Domingo.

    Beijokas e até breve. O almoço não está esquecido hein.

  4. 4

    Neste último Domingo não dava para eu ir, mas temos que combinar! E o almoço também… 🙂
    Obrigada pelo comentário tão agradável 🙂
    Beijinhos
    Isabel

  5. 5

    […] saber” são representações, abstracções, símbolos, do Todo que existe, a Natureza (posts I, II, III, IV e V), será mais fácil para nós, pais, sabermos deslocar-nos da vivência para a […]


Comment RSS · TrackBack URI

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: