Archive for Dezembro 1, 2010

Projecto Reciclar em Culinária_ Açorda de tofú

A Rute do Publicar para Partilhar propôs-nos participar neste projecto do Delícias e Talentos. A ideia é publicar uma receita que inclua um ou mais ingredientes que façam parte das sobras de outra refeição ou outros aproveitamentos, acompanhando-a de um texto sobre a importância de “reciclar comida” nos dias de hoje.

Primeira reflexão: nos dias de hoje? Ou desde sempre?

É que quando a Rute nos propôs participarmos neste projecto lembrei-me logo das “receitas de reciclagem” da minha avó e perguntei-me: será que no tempo dos nossos avós é que era habitual transformar sobras de uma refeição num novo prato delicioso? É que de facto, a minha avó tinha uma boa centena de receitas de pratos que aproveitavam sobras de outras refeições… ;)

A saber:

1 -Sobras de arroz cozido eram transformadas em pastelinhos de arroz, fritos (envolvendo as sobras em ovo, cebola picada e salsa e deitando colheradas do preparado para a sertã _ se quiserem saber tudo sobre a sertã ler este post da participação de Vale de Gil do Pés Na Relva neste projecto e os respectivos comentários_ onde os pastelinhos de arroz eram fritos em óleo bem quente);

ou se nos apetecia algo mais fofo, transformavam-se as sobras de arroz num belo suflê (também recorrendo aos ovos, gemas misturadas directamente no arroz e adicionando mais algumas sobras de frango, chouriços, o que houvesse, de seguida as claras em castelo, temperos rectificados e forno com o pirex, após polvilhado com pão ralado;

ou simplesmente se aqueciam as sobras do arroz (arroz de tudo_ de tomate, de ervilhas, de feijão, de polvo, o que houvesse!) no forno, polvilhado de pedacinhos de manteiga, o que lhe conferia logo outra textura.

2 – Sobras de batatinhas eram transformadas nas batatinhas na sertã como a já indicada receita de Vale de Gil em Pés Na Relva, ou em belas tortilhas de batata.

3 – Sobras de esparguete tinham um tratamento semelhante (suflês, pastéis, tortilhas, empadões).

4 – Sobras de pão duro davam as belas açordas ou os pudins de pão ou as “fatias paridas” (assim se chamavam em casa da minha avó e que são nada mais nada menos que as rabanadas, nome que só aprendi muito mais tarde).

E quem não se lembra da tradicional “roupa velha” a seguir à Ceia de Natal, reciclando o prato de bacalhau ou da “sopa do cozido” que aproveitava no dia seguinte as sobras de um cozido à portuguesa?

Hoje em dia, cá em casa, continuamos a usar todas estas receitas, agora adaptadas à nossa realidade de família vegetariana. E sempre reciclámos na cozinha, porque quem cozinha habitualmente sou eu e eu absorvi os ensinamentos culinários da minha avó. Daí que a importância de reciclar em culinária para nós não tem muito a ver com os dias de hoje ou com a crise, mas sim com uma prática normal e sensata, tal e qual como o poupar água, luz e tudo o mais (alguma vez pensaria deixar uma torneira a correr???).

E agora a nossa participação, propriamente dita:

Este blog é um blog direccionado para a partilha das nossas vivências em Ensino Doméstico (como podem ler nas nossas páginas Projecto e Nós) _ e também participamos no blog Pés Na Relva, conjuntamente com outras famílias portuguesas que praticam o Ensino Doméstico, onde a Rute nos foi propor a participação neste projecto.

Assim, esta participação tem também a vertente de um projecto Reciclar em Culinária inserido no contexto do Ensino Doméstico, que nós, por vocação, aliamos à prática da filosofia de base do “Unschooling”, preconizado por John Holt, que previligia a aprendizagem natural, seguindo os interesses das crianças e aprendendo mediante a execução de projectos (de pequenos projectos, como este, enquanto as crianças são mais pequenas e aumentando naturalmente a complexidade dos projectos à medida que crescem).

Para entrar bem nesta filosofia-prática que é o Unschooling é muito importante ler os dois primeiros livros de John Holt, “Como Aprendem as Crianças” (“How Children Learn”) e “Dificuldades em Aprender” (“How Children Fail”). Aqui neste blog já falei nos vários livros de Holt em alguns posts que podem encontrar agrupados acedendo à Tag John Holt, aqui.

Voltando à aprendizagem por projectos e, particularmente ao projecto de hoje: o Alexandre (nosso filho), de 7 anos, gosta muito de cozinhar, desde os 3-4 que ajuda a mexer os tachos. Daí que sim, este projecto entrou naturalmente no que fazemos no dia a dia.

Desde a proposta da Rute que andava à espera de ter sobras na cozinha, mas esta família é grande e ultimamente sempre aparecia mais alguém para comer… bem, refeições e refeições sem sobrar nada!!!

Até que um dia destes me dei conta que num dos dias que tinha cá muita gente tinha comprado pão a mais, nem as tradicionais torradas para aproveitar o pão no dia seguinte estavam a dar conta do recado, vou fazer açorda (estava cá o namorado da mana Catarina que é “doido por açorda”)… e espera lá! Meninos, não é uma receita original para o “projecto da Rute” (no Delícias & Talentos andava a seguir as participações através deste link e lembrei-me depois de termos feito a açordinha de tofú que já tinha visto uma “participação com açorda”…), mas enquadra-se perfeitamente e bem, foi mesmo o que naturalmente surgiu.

E assim, eu, o Alexandre e a sua amiguinha M., que estava cá a brincar com ele, fomos para a cozinha e a “aula” traduziu-se em explicar à M. (9 anos) o que íamos fazer:

“Açorda de Tofú”.

“Sabes, M., está aqui muito pão, algum está duro, a minha mãe aproveita o pão e faz açorda, que ela gosta muito, mas eu não gosto. Mas gosto de a ajudar a cozinhar. E o Bato também gosta muito de açorda e ele está cá hoje, e as manas também gostam. Por isso ela também vai cozer batatinhas, para mim, e vai fazer esta comida que assim não tem de deitar pão fora, percebes? Vamos ajudar! Ah! Queres saber quais são os ingredientes?”

E enquanto preparávamos os ingredientes lembrei-me que podia fazer uma “sopa de letras” com os ingredientes (outra reciclagem                😀             ), que o Alexandre gosta muito desse “jogo”, como podem ver na parte do Caderno Verde deste outro post.

E assim, piquei a cebola, eles colocaram o azeite e a folha de louro (que lavaram primeiro _ uma alegria, sempre, mexer na água!) e depois, “à vez”, foram mexendo. A seguir o tomate em pedacinhos (depois de lavado também_ outra festa!). E alho picadinho (temos um aparelhinho novo, manual, para picá-lo, ui! Tem que se fazer alguma força! Já está). E de novo eles os dois mexendo, “à vez”.

Falta o tofú! Tenho aqui tofú fumado, fica mais delicioso. Parti aos pedacinhos e eles colocaram no tacho e mexeram.

Colocámos o pão em água filtrada que mais tarde esprememos e desfizémos para o preparado no tacho.

E misturámos. Colocaram o sal, provei, mais um pouquinho (sal marinho não refinado), mais um pouquinho de azeite… et voilà!

Tirei a foto (vocês desculpem as minhas fotos tiradas com o telemóvel, sem a ajuda de um flash, portanto…) :

E bem, falta a salsa (já não apareceu na foto)… toque final. Quem gostar pode por coentros, em vez. Eu não ponho quando a mana Celina come em casa que ela não suporta nem o cheiro dos coentros.

Estava mesmo deliciosa. O Alexandre não gosta, porque não gosta de “papas”, tal como nunca quiz qualquer papa de cereais, nem gosta de puré, suflês ou empadões. Eu e o pai, quando éramos miúdos também não gostávamos, sempre nos fez impressão comer papas. Pronto, o rapaz tem mesmo a quem sair. Eu nunca conseguia comer a açorda da minha avó.

Esta não é a receita da minha avó, a dela era mesmo colocar o pão demolhado e espremido para dentro de um pouquinho de água a ferver temperada de sal e salsa e escalfar um ovo lá dentro, regando com um fio de azeite.

Esta “Açorda de tofú” é uma adaptação das açordas que eu comia em Moçambique feitas pela minha madrasta (ela fazia assim a açorda de bacalhau e a açorda de camarão, a única diferença é que eu usei tofú fumado no lugar do bacalhau ou do camarão e não coloquei o ovo batido que ela colocava no fim para ligar bem e amaciar _ eu prefiro pôr mais um pouquinho de azeite no final para “amaciar”); Desta açorda eu já gostava, mas também já tinha uns 11-12 anos quando provei.

E agora gosto muito da minha açorda de tofú fumado! E o pai também já começou a gostar de açorda (desta minha) e as manas sempre gostaram e o Bato adora.

Bem… e no final da refeição, só falta ir resolver a sopa de letras!

Quando chegou ao “azeite”, disse o Alexandre: “Bem, esta palavra tem a primeira e a última letra do alfabeto!”

Então beijinhos, até ao próximo post, belas reciclagens para todos!

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