Unschooling Portugal

Bom dia a todos com cheirinho a Primavera!                       🙂

Os dias voltaram a nublados, mas as flores já despontam por aí!…

Como tinha prometido há uns posts atrás e na sequência de uma Pergunta Frequente que nos têm feito: “pode praticar-se o Unschooling em Portugal?”, aqui fica hoje este post com o desejo de ser de algum proveito para alguém.

Da nossa muito pouca experiência sobre o assunto e muito parca para podermos “escrever um tratado sobre o tema” costumamos responder o seguinte:

1 – Olhando estritamente para o quadro legislativo português em matéria de Ensino Doméstico dir-se-ia que não, o Unschooling não é praticável em Portugal, isto porque a lei obriga a exames de equivalência no final de cada ciclo (com excepção do primeiro, que não obriga, mas quase todas as escolas pedem que as crianças façam um teste presencial no final do 4º ano), o que de alguma forma, implica seguir um currículo.

2 – Convém estarmos um pouco “por dentro” da “filosofia/prática” inerente ao Unschooling. O melhor é começar por ler os dois primeiros livros de John Holt  (a quem se atribui a definição do termo “unschooling”), já muitas vezes falados aqui neste blog (podem ler este post e este), “Como As Crianças Aprendem” (“How Children Learn”) e “Dificuldades em Aprender” (“How Children Fail”). E também podem ler a “colecção de posts” sob a etiqueta (tag) “Livros” onde estão muitos excertos de vários livros de John Holt, entre outros.

Para entender o “conceito”, a sua leitura é essencial.

Também é bom ler os demais livros de John Holt, ainda não editados em Portugal. Li “Learning All The Time” e “Teach Your Own”. Muito bons. (Para aceder directamente ao site de John Holt, aqui).

E se quiserem ler sobre muitos exemplos por todo Mundo de vivências em Unschooling, cliquem na etiqueta (tag) “unschooling” no site da Paula do “Aprender Sem Escola”.

3 – Assim muito muito simplificadamente, o unschooling tem como princípio a aprendizagem natural da criança, seguindo os seus interesses e curiosidade naturais e desenvolvendo por aí os tópicos que forem surgindo, à medida das suas solicitações.

O papel dos pais será sobretudo o apoio, acompanhamento, atenção, propondo algumas actividades de uma forma flexível, isto é, estando abertos a que as crianças não se interessem por elas e façam surgir outras muito mais interessantes para elas, na altura.

Sem currículos, sem avaliações.

Assim muito muito muito simplificadamente, uschooling pressupõe “viver” (mais ainda que “viver e aprender”).

4 – Ora como é que isto se pode encaixar na legislação portuguesa que existe sobre o Ensino Doméstico? À primeira vista parece não haver forma de se encaixar.

Algo essencial a reter: não há receitas. Cada um é como cada qual. Cada criança é como ela própria, cada um dos pais como cada um, cada família funciona da sua forma intrínseca e particular.

Quando leio os blogs das várias famílias praticantes do Ensino Doméstico gosto de os ler precisamente por haver uma variedade tal de maneiras como cada família funciona e como cada criança se interessa pelas mais variadas coisas, identificando-nos com umas e pouco com outras, adaptando ideias daqui e dali, sentindo que sim, isto para nós também é assim, ou não, aquilo funciona assim também com o nosso filho, aquela outra forma já não se adapta.

Voltando ao “como poderá o unschooling encaixar-se na legislação actualmente existe sobre o Ensino Doméstico, em Portugal?”, vivendo um dia de cada vez, as coisas às vezes podem ser de outra maneira.

No primeiro ciclo, temos 4 anos pela frente onde nos podemos aventurar a não seguir currículo, ainda que com o fantasma do teste presencial no final do 4º ano, fantasma sobretudo para quem, como o Alexandre, não gosta nada de fazer fichas nem testes nem de se submeter conscientemente a “avaliações”.

Mas há crianças que gostam. Por isso, para mim, dentro do unschooling que é seguir os interesses e gostos de cada criança, se ela gostar de fazer fichas, porque não fazê-las? E testes? E o que for? Unschooling, para mim, não é sinónimo de absolutamente sem testes, sem fichas, sem desenhos estereotipados, sem que recurso for, caso a criança se dê bem com determinada actividade e a peça ou se entusiasme com ela.

Por exemplo, ao ler este post da Meninheira do blog Dalle Un Coliño e este outro da Marvan do blog Orca & Alce, ok, há crianças que gostam de pintar desenhos reproduzidos, há crianças que gostam de fazer testes e até os fazem a si próprias se não tiverem testes-tipo à mão. Aos pais cabe o conhecer o melhor possível cada um dos seus filhos (e nós pais, que os acompanhamos desde bebés, desde que nascem, somos as pessoas à partida mais “qualificadas” para conhecer o que entusiasma cada um dos nossos filhos). E ainda assim, eles, os nossos filhos, estão sempre a surpreender-nos.

O nosso filho não gosta de fichas, de colorir desenhos, nem de “desenhar” repetidas vezes a mesma letra até sair mais perfeitinha. Desenha-a uma vez e está feito. O que tenho reparado é que numa vez seguinte, passados dias e até meses, já a desenha mais perfeita, à primeira, sem ter tido que ser sujeito a “praticar” repetitivamente o “desenho” da letra. O controle motor é já outro e foi aperfeiçoado de outras formas, porque tudo é um conjunto. Se ele gostasse, tudo bem, não teria qualquer problema em incentivá-lo a “praticar o desenho das letras” ou a colorir desenhos ou o que for.

O Alexandre está inscrito no 2º ano do 1º ciclo na escola da nossa área de residência, em Ensino Doméstico. Esta é uma escola onde todos os anos temos de pedir a renovação da inscrição em Ensino Doméstico (como diz na lei), onde nos disseram que a avaliação do nosso educando é por nossa conta (como diz a lei), onde nos aconselharam a manter um portfólio para o caso de o termos de apresentar no final do 1º ciclo (não diz na lei…) e onde também já nos disseram que em princípio, no final do 4º ano, ele teria de se submeter a um teste presencial caso quiséssemos que alguma escola aceitasse a sua inscrição no 5º ano (também não o diz a lei).

Um parêntesis: Caso queiram saber quais os Decreto-Lei, Leis e Despachos em vigor sobre o Ensino Doméstico em Portugal podem consultar a página Legislação do blog Pés Na Relva.

Assim, não temos seguido currículo (embora eu tenha conhecimento do conteúdo do currículo do 1º ciclo) e temos seguido os interesses do nosso filho através dos quais ele aprende imensas coisas. Tenho noção que no que se refere a matemática, geometria e ciências (estudo do meio), ele está perfeitamente dentro dos itens do que o currículo estipula para o 2º ano (mais “à frente” até, nalgumas matérias), o mesmo não acontecendo em relação à leitura e à escrita, saiba eu, no entanto, que ele tem um bom vocabulário e interpreta textos perfeitamente. Confio que até ao final do 4º ano tudo isso terá sido coberto.

Há ainda a hipótese de o podermos transferir do Ensino Doméstico para uma escola “à distancia”, também possível em Portugal. No nosso caso desejaríamos uma escola à distância vocacionada para o ensino doméstico, como por exemplo a Clonlara (que também existe em Espanha), onde já não se põe a realização de testes e exames e a avaliação é feita pelos projectos que empreendemos juntos.

5 – À laia de conclusão, portanto, Unschooling Portugal, sim (com uma grande dose de criatividade), pelo menos nos primeiros anos de escolaridade, enquanto não houver uma correcta divulgação e aceitação do conceito que permita a vivência em pleno do unschooling em Portugal.

Pergunto-me: será muito difícil que venha a existir, por exemplo, um ramo português da Clonlara School?

Pronto, o prometido é devido e está cumprido. Para todos os que nos têm feito a pergunta e não só, para todos os que se interessem agora ou se tenham interessado mesmo não tendo perguntado.              🙂

Abraço-vos, até ao próximo post!

Isabel

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5 Respostas so far »

  1. 1

    Patrícia said,

    Olá Isabel,

    “Abraço-vos, até ao próximo post!”

    … E onde está o Caderno Verde, hum…? 🙂

    Ou a senhora pensa em fazer um post longo e julga que nós saímos daqui com as mãos a abanar…

    Beijinhos,
    Pat

  2. 2

    😀

    Vai sair um só com o Caderno Verde… 🙂 Não sei se ainda antes da participação na blogagem colectiva proposta pela Rute, ou só depois! Talvez ainda antes…

    Náo deixas passar nada! 😉
    Muitos beijinhos
    Isabel

  3. 3

    Paula said,

    Que post tão util!
    Vou linkar 🙂

    ver tb a página
    http://aprendersemescola.blogspot.com/p/unschooling.html

  4. 4

    Que bom! 🙂
    Beijinhos
    Isabel

  5. 5

    Ah, Paula! E obrigada pelo link para a página, sabes que ainda não me tinha apercebido que tinhas páginas no blog? Agora já estive a ver, foi uma solução óptima, é muito prático para a ceder à informação tão preciosa que disponibilizas. Obrigada, de novo. Beijinhos.
    Isabel


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