No Improvisar é que está o ganho

Vivam, boa noite!

O Alexandre gosta muito de improvisar (e da palavra improvisar!) e para ele, improvisar, tem apenas o lado muito construtivo quase sinónimo de criar, inovar, crescer, florescer…

Assim à partida, com a minha mente ainda muito condicionada por muitas coisas, eu não vi logo esta pureza e esta força criativa quando ele falava em improvisar, o que acontecia (e continua a acontecer) muitas vezes quando está a construir com peças da Lego, seguindo instruções que o pai encontra na net, naves, navios, comboios para os quais não comprámos especificamente o conjuntinho das peças afins; como ele já tem muitas peças, baralhando e dando, consegue aplicá-las em muitas construções diferentes, mesmo as não imaginadas por ele, improvisando, como ele diz: não tem a “peça específica”, “constrói-a” utilizando e juntando outras.

Como eu disse, inicialmente eu olhava para esta sua habilidade (e consequentemente para a sua utilização da palavra “improvisar”) como a “arte do desenrascanço” (numa ótica um bocadinho depreciativa, diga-se) e como uma habilidade (essa de uma forma já menos depreciativa) de arranjar soluções para tudo, mesmo que não fosse da forma “perfeita”.

Aos poucos a minha ótica foi-se transformando e fui entendendo a profundidade e a beleza do seu IMPROVISAR. E na Sexta passada, quando cheguei a casa, percebi exatamente a extensão e a maravilha da coisa.

Quando cheguei ele estava a ver (a re,re,re,rever) o Ratatui. E assim que entrei, parou o filme e disse-me “Mãe, mãe, vamos fazer uma comida, mas vamos fazer uma diferente, vamos Improvisar!”, continuando de seguida a explicar-me: “Sabes, vamos fazer como eles no filme, eu já percebi como vamos improvisar: pegamos em dois ingredientes, experimentamos cada um em separado e depois os dois juntos, para ver se os sabores combinam; depois com mais dois ingredientes…”. “Vamos fazer o quê? _ perguntei”. Ele queria uma sopa (no filme, é o primeiro cozinhado do ratinho           ;)         ), mas como eu tinha resto de duas sopas no frigorífico expliquei-lhe que mais uma diferente não dava muito jeito e resolvemos fazer um “esparguete improvisado”. Então ele abriu o frigorífico e começa a ver quais os ingredientes, não habituais nas nossas massas, poderia experimentar (diga-se que o seu esparguete preferido só costuma levar milho, tofú e salsichas de soja). Bem, foi da maneira que o rapaz até comeu bróculos que de há um ano ou dois para cá tinha deixado de gostar.

Então: primeiro provou um pedacinho de tomate (não trincou o esparguete duro😉 ), com um pedacinho de bróculo cru (a ver se ligava)… huuuummmm… “Ficam muito bem!”. E é melhor pôr também um bocadinho de polpa de tomate. Depois salsicha de soja e feijão encarnado cozido. Azeitonas descaroçadas. E escolheu logo ingredientes para um molho (este sim, muito inovador!) para colocarmos por cima no final: iogurte de soja natural (os únicos que ele come), maionese, sal, uma colherzinha de doce de morango e morangos frescos picadinhos por cima.

Ficou assim:

Ele gostou (embora ele não seja muito _ nem eu!_ de sabores agri-doces), mas ficou bom, nós esmerámo-nos na arte de improvisar.

Entretanto, surgiu-lhe uma questão: “Mãe, o problema é que se quisermos repetir a receita, já não vamos saber!”. Dois segundos depois vem da sala com um papel e um lápis (é rápido com as soluções para os  problemas): “Já sei: vamos escrever a receita do que fizémos, assim podemos repeti-la mais tarde, ainda te lembras de tudo, não lembras, mãe? Vou já desenhar os ingredientes e escrever as quantidades, primeiro foi o tomate, não foi?”

Para o Alexandre, uma receita consta apenas de elencarmos todos os ingredientes utilizados e as respetivas quantidades pela ordem com que foram usados. É uma receita sintética, mas que funciona, pois tendo os igredientes por ordem de utilização sabemos exatamente o que colocar primeiro ao lume e o que colocar depois…                                              :)                          _ a invenção deste tipo de receita também é dele.

Desenhou um tomate (em ponto bem pequeno) e colocou um 1 (usámos 1 tomate). Ingrediente seguinte: Polpa de tomate. “Mãe, quanto é que colocaste de polpa de tomate?” “Deitei lá para dentro um pedacinho, mas bem, foi “a olho”, não sei exatamente quanto…”

E agora, para mim, a pérola, a cereja no topo do bolo, da arte de improvisar:

“Já sei: quantos segundos estiveste a deitar a polpa de tomate?”

“Huuuummmm… dois segundos”.

Então ficou registado na receita: 2 s (desenho do frasco da polpa em miniatura) de polpa de tomate (e 2 s de azeite…).

Portanto, rendo-me, improvisar é o máximo!

Muitos beijinhos, belas improvisações para todos           😉

Isabel

7 Respostas so far »

  1. 1

    Lina said,

    Olá, Isabel!O teu filhote nos deu uma grande lição sobre a palavra improvisar, que poderia ser: visar o improvável, ver além de, exergar além do óbvio. Para ele isso é natural, para nós não!É claro que a maneira magnífica que ele está a ser educado tem muito a ver…não estão a ser colocadas as tais “barreiras” na imaginação dele, o que alguns chamam pureza infantil, que todas as crianças possuem e que infelizmente vão perdendo com os condicionalismos da sociedade. Espero que continues a nos transmitir mais improvisãções do Alexandre para aprendermos a deixar cair as amarras e soltar a nossa imaginação! Também tenho aqui uma pequena professora e tenho aprendido muito com ela, às vezes penso, nas coisas que lhe saem, que isso é a prova de que o ser humano não virá para este mundo totalmente em branco, mas sim que já carrega memórias e conhecimentos…e é tão bom vê-los crescer e desabrochar…
    Bem, aos pouquinhos vou saindo da hibernação(da mente), porque com este frio apetece mesmo hibernar de verdade para debaixo das mantas!
    O final do ano não foi muito fácil para mim(psicologicamente falando) e só agora estou a dar o ar da minha graça, mas não me esqueci de nós(III)…
    Um beijo bem grandão!

  2. 2

    Lina!!!
    Que bom ver-te por aqui!🙂
    Se percebo isso do hibernar… 😉
    Grata pelo teu carinho e entendimento, beijinhos para ti e para a “tua professora”!
    Isabel

  3. 3

    Gina said,

    Isabel,
    Que coisa linda o entusiasmo dele!
    Ando acompanhando o Junior MasterChef e fico impressionada com a capacidade das crianças selecionadas no pragrama de culinária. Deixam muitos adultos no “chinelo”.
    Agora, 2 segundos de polpa de tomate e de azeite é totalmente inovador! Conhecemos tantas medidas (colheres, xícaras, gramas), inclusive algumas ultrapassadas (pires, copos sem dizer a quantidade exata), mas a medida em tempo só mesmo na cabecinha do Alexandre!
    Lembrei-me do meu filho aos 4 anos que fazia coisas incríveis com o lego.
    As crianças são uma alegria enorme e fonte de muito aprendizado para os adultos.
    Bom final de semana!

  4. 4

    Gina, obrigada!!!
    Muitos beijinhos
    Isabel

  5. 5

    ruteppp said,

    Esse miudo parece meu filho!
    Eu também passo a vida a improvisar. Ainda ontem fiz uma delicia improvisada quando antes havia pensado que não tinha nada de jeito para o jantar🙂

    Sabes, o que vos aconselho? A criação de um blog “Ratatui dos pequeninos”🙂
    Fala a experiência! Desde que tenho o PPP, todas as improvisações já têm morada certa e as reproduções improvisadas também🙂

    A Carolina também gosta muito de re-re-re-rever esse e outros filmes. Mas ainda não lhe deu para ir improvisar para a cozinha. Ela por enquanto, dedica-se mais ao artesanato com lixo reciclado. A minha sala está sempre virada do avesso, com caixas, plásticos, cola, tesoura e etc, espalhados por todo o lado😦

    Deixemos as crianças manifestarem a arte interior.
    Beijinhos.
    Rute
    P.s.-Este post deu-me fome!

  6. 6

    🙂 Pois, Rutinha, eu sei que tu és o ás da improvisação! Já provei!!! 🙂
    Mil beijinhos e grata pela visita
    Isabel

  7. 7

    […] como já escrevi num post sobre o tema, a dada altura comecei a apreciar o seu espírito de improviso. Esta cidade tem edifícios feitos […]


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