O Que Gosto Muito na nossa experiência com o ensino doméstico

Olá! Vivam!

Na experiência que temos tido com o ensino doméstico gosto, sobretudo de, a cada dia, me surpreender com: a forma como a aprendizagem se encadeia para cada um, como os mais variados assuntos se vão interligando, como as crianças não sujeitas a aprender por obrigação o fazem com a maior alegria e espontaneidade da forma que lhes faz sentido.

Já mostrei aqui muitas das atividades que vão surgindo. Aqui ficam mais algumas e como se encadearam…

Reformularam (e pintaram!), ele e a irmã mais velha, uns suportes de madeira de uma ponte para servirem de suportes para teleféricos

Gostei também de chegar a casa e deparar-me com uma exposição, já montada, ao longo do corredor, sobre “Star Wars”:

Deram-se ao trabalho de colocar indicadores referenciando o tema da exposição e sob cada peça exposta.

Um “andante”… (as peças expostas foram por ele construídas em Lego, mas isso já é o habitual o que foi novo foi a montagem de uma exposição)…

… com os limites do início e do final da exposição (no início e no final do corredor), bem demarcados:

acaba aqui:

começa aqui:

Gostei também muito quando, de repente, o Alexandre passou do pouco entusiasmo que inicialmente tinha para desenhar para ser uma atividade quase diária e espontânea. De repente começou a registar, por desenhos, tudo o que lhe interessa, ou o que vê, ou o que faz, ou quando quer desenvolver um projeto (esquematiza-o primeiro…).

Este  foi um dos primeiros “desenhos espontâneos mais complexos que os anteriores”, o sistema solar:

E também, com o puzzle do mapa mundi acabado de fazer e porque nós o mantemos vários dias (às vezes meses) feito em cima da mesa da sala (e este é um puzzle enorme, de 4000 peças) para aproveitarmos o que ele nos proporciona como recurso de aprendizagem, ele resolveu contar quantas ilhas tem o Canadá. Depois fomos confirmar à net…

E quando houve a “onda dos Smurfs” (derivado do filme), surgiram também as pinturas faciais (com materiais próprios, a irmã mais velha costuma trabalhar também com as pinturas faciais). A mana pintou um Smurf ao mano…

… e ele, uma borboleta:

O que também gosto no ensino doméstico: liberdade de movimentos. Para melhor colocar algumas peças no puzzle (este é o “das cidades”, um puzzle de Manhattan), sobe-se mesmo para cima da mesa (eu mesma também estive umas vezes em cima da mesa para encaixar algumas peças no puzzle!):

😉

Aqui é a utilização dos ímans para representarem “picos” (uma superfície agreste) sobre o aquecedor:

E esta foi uma ideia muito mimosa da parte do pequeno, usar as caixinhas que usamos para os brigadeiros para nos dar uns “bolinhos” de amendoins torrados e passas (colocou mesmo só amendoins numas caixinhas e passas de uva noutras), o que resultou visualmente muito agradável e nos soube bem, pois às vezes são as nossas “pipocas” quando assistimos a um filme juntos (e íamos ver um, em casa)…

Voltando às cidades (e aos puzzles!), foi por causa do “puzzle das cidades” que ele sentiu necessidade de desenhar em perspetiva, pois não queria mais desenhar prédios a duas dimensões, queria desenhar de forma a que se parecessem com a fotografia do puzzle.

E outra das coisas que gostei muito este ano: o Alexandre nunca foi muito de arrumar os brinquedos. Nós às vezes pedimos-lhe para os arrumar, outras vezes fazemo-lo nós. Nunca insisti muito. De repente, despertou o seu sentido de arrumação/organização: pediu-me que disponibilizasse uma prateleira só para os seus filmes e organizou-os todos por coleções (e para os que não pertencem a qualquer coleção arranjou um critério também). Depois dessa primeira vez (e como o número de filmes também vai crescendo) já os reorganizou mais umas três vezes (e já me pediu outra prateleira!). Ninguém pode dessarrumar os seus filmes e quando retira um, volta a colocar no lugar depois de vê-lo. É muito cioso dos seus dvd’s.

Também gosto de receber estas mensagens amorosas, sem qualquer razão aparente…

E como já escrevi num post sobre o tema, a dada altura comecei a apreciar o seu espírito de improviso. Esta cidade tem edifícios feitos de caixas de cd’s com chaminés feitas de velas…

… e também os livros servem para construir edifícios maiores…

… e as próprias caixas que usamos para arrumar as peças de Lego, que dão cor à cidade!

E aqui temos uma experiência de como funcionam os vasos comunicantes:

(Não, é parecido, aqui invertemos o princípio… mas depois fomos à net para ele ver as imagens no link acima e ele percebeu o princípio dos vasos comunicantes estipulado pelo Galileu). Isto não faz parte do programa do 3º ano, claro, mas surgiu e quando surge, nós agarramos a oportunidade. Que é outra coisa que eu também gosto muito no ensino doméstico.

E aqui uma das muitas representações que ele já fez do museu da eletricidade (as três ou quatro visitas ao museu da eletricidade já deram pano para mangas!):

A dada altura quiz aprender a jogar “xadrez de verdade”. Ele sempre achou piada ao tabuleiro e às peças de xadrez, mas nunca quiz aprender as regras do jogo (inventava as suas); desta vez, este ano, pediu-me para aprender as regras do jogo.

Como já não me lembrava de algumas coisas (não tinha a certeza), recorri ao Livro de Xadrez da irmã do meio, a Celina, que desde pequena não gostava muito de ler (histórias), só gostava de ler “livros técnicos” (livros sobre animais, por exemplo, na sua biblioteca há vários livros sobretudo sobre felinos) e um belo dia pediu-me para lhe comprar um livro de xadrez, pois queria aprender a jogar xadrez e esmiuçar o assunto. Assim, lá fomos ao quarto da mana Celina, buscar o livro:

Passada cerca de uma hora, deixou de achar piada às peças “normais” e quiz inventar as suas próprias peças que teriam as funções correspondentes do rei, rainha, cavalos, bispos, torres, peões. Pensou e foi buscar os seus bonecos de peças de Lego e lá lhe foi atribuindo as funções, para continuarmos a jogar. Sem dúvida que se tornou muito mais divertido (mas mais difícil para mim que não conheço tão bem os bonecos e memorizar as nuances que distinguiam o rei dos peões ou dos bispos foi para mim o cabo dos trabalhos)!

Mais cidades (agora a sua preferida é Tóquio, por ter descoberto que esta é a mais populosa do Mundo; já nos pediu para viajarmos até lá, não temos money para tal, para já…):

Outra coisa que gosto, no ensino doméstico: entremeamos tudo com tudo. Por exemplo, no meio da construção da cidade que demora um certo tempo e para não ser monótno e cansativo, às vezes ele pára e faz outra coisa, como por exemplo, uns exercícios destas fichas de Matemática, ou um bocadinho do “jogo das aventuras 2 ou 3” (os cd´s da Escola Virtual). Normalmente estão duas ou três coisas “abertas” ao mesmo tempo (o “jogo das aventuras” (Escola Virtual) no computador, as caixas dos legos, a telvisão, o puzzle em cima da mesa, os papéis e lápis mesmo ali à mão na outra mesinha mais pequena, pois é frequente ele estar a ver uma história e depois ir desenhar uma das suas cenas ou um dos seus componentes, num pequeno intervalo que ele próprio faz. Dantes ele não gostava de ir ao cinema por causa disto, porque não podia parar o filme e desenhar algo do filme ou construir em Lego (agora já gosta de ir e tem ido mais vezes. escusado será dizer que um dos últimos que fomos ver todos juntos foi “As Invenções de Hugo”. Ontem também foi, com a irmã mais velha, ver “A Idade do Gelo, 4”).

E quanto à forma como cada um liga as coisas e é assim que aprende (a propósito disto estou para colocar aqui n’A Escola É  Bela um post sobre os princípios do Unschooling, uma tradução livre da Marta Pires de algo existente num site da Sandra Dodd, depois coloco e indico melhor as fontes): este desenho feito pelo Alexandre, para além da representação do comboio e construções, tem representado no canto superior esquerdo o próprio Alexandre com três letras associadas a três alimentos. Vemos melhor o detalhe na 2ª foto.

Isto porque ele tinha querido saber em que alimentos existiam as diversas vitaminas e tínhamos andado a escrever isso. Depois, mais tarde, neste desenho resolveu representar uma pequena amostra do que sabe sobre o assunto. E então temos o “A” de Cenoura (com a seta que liga a vitamina “A” à cenoura), o “B” de Batata e o “C” de Laranja…

😉

E outro dos princípios do Unschooling (aprendizagem natural) é seguir os seus interesses. O que dá um certo trabalho, mas é muito gratificante, pois é raro esquecerem algo que aprendem assim, por interesse genuíno. Como por exemplo, no outro dia a propósito das datas e do significado (convenção) de estarmos no ano de 2012, ele disse-nos que gostaria muito de saber a história do Mundo desde o “ano 0”, “aquele que vocês dizem que se conta desde que nasceu esse Jesus Cristo”… Ora que para ser mais fácil que uma pesquisa aturada na net, recorri à enciclopédia que temos desde a altura em que as “miúdas” andavam na escola e descobri lá um sobre História Universal e fomos dar uma vista de olhos. Pois… onde o rapaz parou e se interessou por mais detalhes…

… na Revolução Industrial, of course:

… a expansão das cidades, as indústrias (o carvão!!!), os comboios (estava eu à espera de quê?)…

No outro dia, fomos com os nossos vizinhos pequenos andar no “Comboio Azul” para atravessar a ponte, até ao fogueteiro (os vizinhos ainda não tinham andado neste comboio de 2 andares) e assim que chegámos lá desenhou ele o “comboio azul” que é como ele chama ao da Fertagus que nos transporta para a margem Sul…

Muito mais há para contar, como mostra de como a “aprendizagem natural” ocorre… vou ficar hoje por aqui que o post já vai loooonnnngo. Em breve colocarei então o “resumo dos princíos do Unschooling”, por gentileza (e trabalho a traduzir!) da Marta Pires.

Beijinhos a todos!

Isabel

x

Caderno Verde

Montagem, reproduzindo o que vê

Um belo dia, chegada a casa, deparo-me com este trabalho importante: o Alexandre brincou de instalar computador e seus dispositivos através de “peças soltas” que o pai tinha posto de lado, por já não funcionarem de todo: um portátil, cabos de ligação, um rato. Ele uniu o que tinha para ligar, computador, cabo e rato, simulando tudo ligado à eletricidade e uma mesinha de trabalho. Prontinho para ele “trabalhar” ou mais alguém que precisasse. De notar que ele tem o seu computador de verdade e que faz ligações de verdade, mas este fazia parte de uma brincadeira com itens de verdade que já não funcionam.

5 Respostas so far »

  1. 1

    ruteppp said,

    Eu também me surpreendo com o que tu publicas. O mais extraordinário é essa interação familiar, a irmã super dedicada, o namorado da irmã também, a liberdade que vocês dão ao miúdo para se expandir por toda a casa…
    Não sei se já te falei mas quando a Carolina era pequena, o pai fez uma coisa fantástica. Forrou uma parede do quarto dela com folhas de papel e deixou-a andar a pintar a parede conforme ela quis. Mãos cheias de tinta, pés cheios de tinta… foi uma diversão e tanto. As folhas ainda lá andaram muito tempo, pois havia sempre um pedacinho por escrever que as canetas de pintar adoravam preencher.
    Deste post todo, o que mais me fascinou foram as novas peças de xadrez. Mas adorei tudo. Continua a compartilhar connosco.
    Beijinhos de bom fim-de-semana.
    Rute

  2. 2

    Expandir por toda a casa é algo básico se quisermos que um dia se expanda por todo o Mundo.

    Para nós, não faz sentido que os pais restrinjam as crianças a toda a hora (não podes mexer nas torneiras, não podes comer fora da mesa, não podes brincar fora do teu quarto, não podes dormir na sala, não podes brincar com as colheres de pau, que elas são só para cozinhar, está quietinho sempre no mesmo sítio que assim incomodas menos e eu quero estar sossegado) e depois quererem que um dia, em adultos, eles ganhem o seu próprio sustento, sejam empreendedores, engenheiros e inventores (ou bons futebolistas ou o que for!)…

    A interação familiar, também faz parte (e sempre fez parte, nas antigas tribos), pois como por aqui somos uns quantos se não estivermos em sintonia, a coisa não funciona; não é, no entanto, uma “interação obrigatória” e sim uma genuína! 🙂

    Essa do pai da Carolina foi mesmo gira e estás a ver, ela adorou!

    Eu sei que isto não é fácil, pois temos que abdicar das coisas 100% arrumadinhas, muitas mães já me disseram que não eram capazes, mas há mais algumas e alguns (pais) que fazem coisas do género.

    Quando eles crescerem e saírem de casa teremos tempo para desfrutar de outros estados… ou não… sabe-se lá se não faremos o mesmo com os netos! 😉

    Obrigada, Rute, por vires aqui, sempre com a tua boa disposição! Muitos beijinhos e bom fim-de-semana, também! (nós agora andamos nas pinturas_ o quarto que era da Catarina vai ter outras funções…)
    Isabel

  3. 3

    […] como podem ver aqui, nos primeiros contactos com o jogo, ele alterou logo as peças, adaptando os seus bonecos de […]

  4. 4

    […] acontece e isso faz muito eco com o que aconteceu com o meu pequeno;  a dada altura ele próprio me pediu para lhe dizer como é que se jogava xadrez,  e eu fui-lhe transmitindo as regras frente ao nosso tabuleiro, só que ele desistiu de jogar com […]

  5. 5

    […] belo dia pediu-me para lhe dizer como se jogava xadrez, conforme já contei aqui, prestou muita atenção, jogámos, mas pouco depois adptou outros bonecos, os seus em peças da […]


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