Unschooling é… e Algo sobre Construção

Vivam! Bom dia!

Já por aqui uma vez comentei sobre alguns equívocos que têm surgido (sobretudo em “grupos de discussão” sobre o assunto) em relação ao unschooling e um deles é que os pais unschoolers se limitam a deixar que a criança lidere a sua aprendizagem, “faça exclusivamente o que quer” (no sentido depreciativo da frase) chegando muitas vezes a conetar a prática com uma postura negligente da parte dos pais.

Unschooling não tem absolutamente nada a ver com negligência.

A propósito desses equívocos, a moderadora de um dos grupos do qual sou membro, pediu-me para falar um pouco, nesse grupo, sobre a nossa experiência no que diz respeito à forma como levamos o unschooling a bom porto, no dia a dia, pensando ser útil (e a partir deste post da Pam Sorooshian sobre o facto do “unschooling” não ser um processo unicamente liderado pela criança e onde ela escreveu: “Unschooling IS very very often comprised of asking if the kids want to do something. That is a HUGE part of unschooling. (Caps for emphasis.) Unschooling is also strewing – bringing ideas, objects, experiences, opportunities of all kinds into their lives. We don’t force them. We don’t force them, but we certainly offer. And we often recommend, too. And once in a while we say, “I think you should….”) falarmos um pouco do que o unschooling É, na prática.

Eu respondi ao pedido escrevendo algo como isto:

Penso que quando dizemos que seguimos os interesses da criança isso não significa que estamos passivamente à espera que a criança diga “eu quero fazer isto” e sim que estamos ativamente atentos a tudo o que lhes suscita interesse e que as atividades se desenvolvem a partir daí. O que também não quer dizer que só lhes “oferecemos material de descoberta” que à partida já sabemos que lhes interessa. Sim, oferecemos esse e todos os outros objetos e situações que vão fazendo parte da vida familiar, que vão estando sempre ali à disposição e sugerimos ainda outros conforme vão surgindo as oportunidades sem saber à partida se se interessarão ou não. E também conjugamos as atividades preferidas de toda a família, por exemplo, o Alexandre disse logo que não se interessava em ir ver a pista de gelo que colocaram no parque Eduardo VII na altura do Natal, mas a irmã mais velha empreendeu e combinou (e fez acordos) uma saída em que foram a vários locais “à vez”, para reunir os vários interesses de cada um dos participantes na saída: foram ver as luzes de Natal de Lisboa (que a Catarina e o Alexandre queriam ir ver, foram ao parque para o Bernardo (companheiro da Catarina) andar na pista do gelo e foram ao Colombo (centro comercial) para o Alexandre andar no comboio de Natal; assim, ele participou também de algo que interessa muito a outra pessoa e ficou a conhecer, embora não lhe suscite agora interesse (um dia até pode vir a suscitar e já sabe que existe, já viu alguém praticar um pouco); ainda estavam para ir a Cascais andar na roda gigante, mas já estavam cansadinhos e ficou para outra vez (e com um bónus para a mãe e para o pai que tiveram uma folga e ficaram em casa a namorar ;)).


Mas sim, claro, ainda há pouco tempo coloquei aqui um post sobre as novas aquisições deste Outono algumas das quais incidiram em mapas, pois como o Alexandre se interessa muito por mapas eu já andava a sentir que precisava de investir algum dinheiro em mapas, para que ele pudesse variar as formas que tem interagido com eles que, para além dos mapas que andavam no carro, se cingiam mais aos do google (no computador e no iPad).


E disse também, em cima, que lhe vamos oferecendo todos os objetos e situações que fazem parte do dia a dia da nossa vida familiar… pois, a nossa casa (quem já a conhece sabe o que estou a dizer) é uma casa muito ilustrativa de como se vão passando as coisas; é uma casa movimentada, um T3 que até agora albergava 5 pessoas+1 (o namorado da Catarina que dormia cá frequentes vezes) e agora que eles mudaram para a sua própria casinha a 10 min de carro daqui, ficámos com mais algum espaço e menos algumas coisas deles os dois, mas somos 4 pessoas (e um gato!) e eles os dois continuam a estar cá frequentes vezes (almoçar, passar o dia com o Alexandre e chegam a dormir cá às vezes, ainda, quando dá jeito) e isto continua a ser um entra e sai, para já não falar dos vizinhos (uma de 12 e outro que tem a idade do Alexandre, mas a que está cá muitas vezes é a de 12), em que às vezes chego a casa, como por exemplo há alguns dias atrás, e a minha mesa da sala (que é oval e grandinha tinha-se transformado numa “cama suspensa” com as almofadas dos sofás e as mantas e mais uma parafernália… bem, estava gira!

A nossa casa tem desenhos do Alexandre afixados (por ele!) no corredor e nas portas dos quartos (e até das casas-de-banho); tem livros de quase todos os tipos em várias estantes e em cima de mesas, material para escrita e desenho e recortes e colagens numa prateleira na sala, vários computadores (o “do pai”, o “da mãe”, o “do Alexandre” o “da Catarina” e o “da Celina”_ coloco entre aspas porque praticamente todos usam qualquer um, embora estejam assim atribuídos, à exceção de um dos do pai (pois, esse tem mais que um, pois faz parte do seu trabalho) que é exclusivamente para o seu trabalho e ninguém mais o usa, pois poderia perder-se algo do seu trabalho e não vamos arriscar) a maior parte à disposição na sala (que eu gosto de dizer, porque é mesmo verdade, que a nossa sala é uma sala multi-usos), televisão, wii, leitor de cds, teclado (sintetizador) da Celina que gosta de tocar piano, viola (guitarra acústica) da Celina que  gosta de tocar viola, uma boa quantidade de filmes, alguns comprados especificamente para o Alexandre e que ele próprio é que gosta de os organizar (e pediu-me que lhe disponibilizasse uma prateleira para o efeito, só que passados uns tempos tive que lhe disponibilizar outra que uma já não chegava e ele tem um grande apreço pela sua coleção de filmes), uma já mão cheiazinha de puzzles, milhares de peças de Legos, folhas de rascunho (que eu trago lá do serviço as folhas inutilizadas), ele sabe onde está a minha caixa de costura e vai lá sempre que precisa, buscar linhas para utilizar nas suas construções (não precisa de me pedir e deixa o resto como estava), uma gaveta e mais uma caixa de ferramentas “a sério” que ele também utiliza (o Alexandre tem 9 anos, agora, para quem não sabe, mas desde cedo que o pai o põe a manusear ferramentas e mesmo facas, com supervisão, claro), panos, almofadas, mantas, tendas e tubos daqueles de brincar, de crianças, muitas pistas de comboios e comboios de brincadeira, muitos jogos e simuladores, uma cozinha (que ele sempre trabalhou na cozinha, a sua especialidade aos cinco anos era fazer sumo de laranja e como ainda não tinha força suficiente nas mãos pousava-lhes a cabeça em cima para fazer mais força e conseguir espremer as laranjas no espremedor elétrico_ solução inventada por ele, tenho uma foto dessas aqui no blog, nos posts de 2009, creio) que, para além das artes culinárias, ele também usa para as experiências de química a par com o lavatório da casa-de-banho_ também já cheguei a casa e o lavatório estava cheio de vários líquidos de densidades diferentes, pois ele gosta muito de repetir essa experiência, desde água, a leite de soja, a azeite e a shampoo e no final mexeu tudo com uma colher de pau e ainda adicionou umas gotas de perfume, para a poção ficar cheirosa (ainda no outro dia, “prescindi” de um wrapp para que o pequeno treinasse uma habilidade que lhe apeteceu treinar: fazer como os chefes de cozinha e virar a massa redonda no ar a cair direitinha na frigideira; como no treino a massa caíu umas quantas vezes ao chão, embora em muitas outras tivesse sido bem sucedido, está claro que já não a podia utilizar para comer; é este tipo de coisas para as quais temos que estar preparados na prática do unschooling, não faz sentido proibir que ele queira tentar virar uma massa no ar, há que minimizar o possível “impacto negativo” na economia doméstica a favor de uma experiência que deu os seus frutos).

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E os tais mapas e entretanto quiz um “fato de presidente” que tem vestido vários dias seguidos para atividades que ele considera “de presidente” de coordenação e solucionar problemas, diz ele. E depois é tudo o que acontece e surge no dia-a-dia, mas também agendamos visitas a museus e a outros locais, mas a nossa agenda não é muito rígida, isto é, às vezes apontamos para uma data, mas a maioria das vezes apontamos para uma época e vamos assim que se proporciona; outra coisa que fazemos muito é viajar de transportes públicos, que ele adora e muitas vezes, quando vamos à terra da avó ou da outra avó, pelo menos ele e um de nós vai de comboio, nós arranjamos mesmo maneira de lhe proporcionar isso, assim como viagens de barco, que ele gosta muito.

Então sim, seguir e apoiar os seus interesses não significa de todo que a aprendizagem em unschooling seja única e exclusivamente liderada pela criança, não há é, sequer, qualquer liderança, é uma parceria. É outra ótica, a ótica da Aprendizagem Natural, é uma mistura, uma combinação de interesses, um fluir da vida, com bom senso, sim, com muito bom senso e sobretudo respeito entre todos os intervenientes, respeito pelas especificidades e crescimento de cada um. Uma criança não é um “ser menor” que tem que ser moldado a nosso bel-prazer, é um ser que nos ama e a ser amado e respeitado, considerado, tido em conta, tal como todos os outros membros da família. Para mim, eu aprendo mais com as crianças que elas comigo, isso vos garanto (e eu já fui, em tempos, professora e sou mãe de três filhos). É só deixarmos a sua curiosidade seguir o seu curso e observarmos. E apoiarmos o seu crescimento e desenvolvimento na medida das nossas disponibilidades (neste campo, somos a estrutura de apoio, o pauzinho que ajuda que a planta se não quebre e cresça por ali acima) e estarmos atentos e intervirmos e darmos opiniões e sugestões e estarmos preparados para que essas sugestões se transformem noutras (o que implica flexibilidade da nossa parte, pais) e sermos parceiros e companheiros nesta aventura que é a vida e isso é unschooling.

Até ao próximo post e belas reflexões para todos.
Isabel
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Caderno Verde

Algo sobre Construção

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A Construção (de casas, arranha-céus, túneis, pontes) sempre fascinou o Alexandre.

Ao vivo, em livros ou documentários.

Ultimamente usámos mais estes dois recursos:

Descobrimos que no canal Jim Jam, à noitinha, dão um programa que é uma variação dos desenhos animados do Bob O Construtor, onde mostram mesmo, tipo documentário, várias construções a ser executadas e com explicações sobre o que está a acontecer (já vimos esses programas algumas vezes, desde que os “descobrimos”):

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E este livro, que eu já tenho desde os meus 20 e picos anos e que volta e meia exploramos. Desta vez, a propósito dos novos arranha-céus que vão nascer na China, vimos um documentário sobre a China onde foi referida a Grande Muralha da China e eu lembrei-me que essa era uma das obras focadas neste livro e estivémos a ver as imagens e a ler o texto que traz sobre a Grande Muralha da China:

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2 Respostas so far »

  1. 1

    marcinhacarini said,

    Olá Isabel, que belo blog! Identifiquei-me muito com a forma que vocês conduzem a educação do Alexandre. Loretto, nosso filho mais velho (ele tem 6 anos) também cola seus próprios desenhos na parede e já está com interesses bem definidos na área de biologia. Ele estuda em uma escola municipal muito bacana (com metodologia baseada na Escola da Ponte, em Portugal) que certamente saberá respeitar sua orientação. Se tiver tempo, passeie pelo site da escola – ela se chama Amorim Lima. Acho que vai gostar. Um grande abraço, Marcia Carini

  2. 2

    Obrigada Marcinha! Pela visita e pela informação, vou visitar o site. Eu já tinha visto uma notícia informando que existia agora uma escola no Brasil inspirada na escola da Ponte.
    Um grande abraço e felicidades para vocês.
    Isabel


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