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Aprender “por saltos”

Bom dia!!!

Então que tal esta primeira semana deste novo ano? Muitas inspirações?

Esta hoje, aqui no blogue, vai ser dedicada de novo ao ensino doméstico e a mais uma das características da “aprendizagem natural”.

Um dos aspectos que me interessou relatado por John Holt foi, para além de tudo o que já aqui comentei e citei sobre alguns dos seus textos, que as crianças aprendem “por saltos”, o que me despertou logo a atenção porque o Alexandre começou a falar dessa forma, conforme podem ler no apontamento de hoje do Caderno Verde.

Vou só transcrever um pequeno texto sobre este assunto, do livro “Como As Crianças Aprendem”, de John Holt:

” Horários! Agimos como se as crianças fossem comboios que passam sempre nos mesmos horários. Os maquinistas calculam que, para o seu comboio chegar a Chicago a uma certa hora então tem que chegar “à hora” em cada paragem do seu trajecto. Se está dez minutos atrasado na chegada a uma das estações, já começam as preocupações. Da mesma forma dizemos que, se uma criança vai saber muitas coisas quando chegar à faculdade, então tem que saber certas coisas ao final de determinado ano lectivo e outras tantas ao final do ano seguinte. Se não chega ao final de um desses estágios intermediários quando pensamos que deveria chegar, instantaneamente passamos a crer que vai chegar atrasada ao final. Mas as crianças não são comboios. Elas não aprendem num ritmo constante. Aprendem aos saltos, em repentinos arranques e, quanto mais interessadas estiverem no que estão a aprender, mais rápidos esses saltos ou arranques tendem a ser.”

Depois de constatar passar-se isto mesmo em várias alturas, com o Alexandre, vou comentando isto com algumas pessoas, exemplificando com o que relato hoje no apontamento do Caderno Verde. Uma amiga perguntou-me se com as minhas filhas (mais velhas) não acontecera assim. E a minha resposta, após breve reflexão, é:

Honestamente, não me lembro de muitas coisas em relação à minha filha mais velha, hoje com 23 anos, pois nessa altura não estava ainda muito sensibilizada para nem desperta a pensar nestes termos.

Também não tenho muitos registos das suas várias fases de crescimento como agora tenho do Alexandre, pois hoje estou deveras inclinada para fazê-los à  conta de nos termos proposto a prosseguir com o “unschooling”.

Lembro-me de várias coisas que ficaram sempre na minha memória, tais como, a Catarina cantar muito e muito afinadinha em bebé pequena, ainda mal sabia falar, as letras das músicas que cantava mal se percebiam, mas a melodia era impecável, certinha e afinadinha. E lembro-me de mais coisas ainda da Celina (por ter sido um pouco há menos tempo – elas têm cinco anos de diferença – e porque nessa altura já tinha também uma maior disponibilidade para apreciar devidamente as suas fases de crescimento, como ela ter um jeito especial para as rimas, observar os animais sobretudo os minúsculos, como caracóis e bichos de conta e sair-se com umas perguntas “existenciais”  – que já contei aqui no post “Todas as crianças são cientistas II” – de tal forma que uma colega minha me dizia frequentemente que eu tinha uma filha filósofa!).

Fora isso, aquelas partes de aprenderem a desenhar, aprenderem a ler e a escrever, não o fizeram, como é óbvio, na sua forma natural, pois a mais velha “frequentou a escola” desde os 8 meses e a do meio desde o ano de idade. Para além de não acompanhar directamente o que lhes “ensinavam” e o que praticavam na escola, não manifestavam certamente a sua aprendizagem por saltos, porque não lhes foi permitido aprender naturalmente sem horários, programas a seguir, pelo contrário sempre cheias de tarefas e mais tarefas impostas, para cumprir, como os trabalhos de casa e as demais na escola.

Portanto, as minhas filhas e a maior parte das crianças cá em Portugal da sua geração em diante, não são um bom exemplo para a constatação de que de facto, as crianças aprendem “por saltos” e quanto mais seguem os seus interesses mais rápidos esses saltos são.

Passemos agora ao Caderno Verde…

E até para a semana, dia 9, Lua Cheia, uns belos dias de Primavera para todos!

 

Caderno Verde

Aprender “por saltos”

Pois tenho mesmo algo para ilustrar o que li e comentei em cima sobre o assunto.

O primeiro salto de que nos apercebemos (se não é na aprendizagem é decerto na manifestação/exteriorização dessa aprendizagem): 

Até aos dezoito meses, o Alexandre não andava sozinho. Eu lembrava-me que a minha filha do meio começara andar no preciso dia em que fez um ano, a mais velha aos 14 meses e a filha de um casal nosso amigo, uns meses mais velhinha que o Alexandre, começara a andar aos 9 meses. Como nunca fui de ligar muito se as crianças começam a andar cedo ou mais tarde, pois penso que cada um tem o seu próprio ritmo e dali a uns tempos isso não vai interessar nada, não estava nada preocupada. Entretanto o Alexandre começa de repente a andar e a dar passos seguros, como se já andasse há uns meses; a partir dali nem nos lembrávamos que ele tinha começado a andar há pouco tempo.

Depois aconteceu algo idêntico quando foi para largar as fraldas: eu não tinha experiência nenhuma de começar a habituar as crianças a deixarem de usar as fraldas, pois as minhas filhas receberam esse “treino” no infantário; colocavam todos os pequenos ao mesmo tempo sentados num bacio e ao fim de uns tempos elas lá vinham para casa sem fraldas (e eu continuava a pôr-lhe fraldas à noite até elas passarem umas noites consecutivas sem inutilizarem a fralda). Nem sabia muito bem a que altura elas tinham deixado de usar fraldas.

Bem, quando o Alexandre fez dois anos resolvemos ir passar férias à terra onde ele nasceu (Beniarbeig). Na minha cabeça achei que seria boa altura, Verão, férias, para começar a colocá-lo algumas vezes no bacio a ver o que acontecia. Levei de férias os “dispositivos” necessários e lá tirava-lhe a fralda, mas ninguém o conseguia fazer sentar no bacio. Não me ralei nada, pensei, “ainda não vai ser desta, se calhar ainda é muito cedo”.

Assim que voltámos de férias, não tentei mais nada durante uns tempos, mas começo a vê-lo a ir direitinho ao bacio e sentar-se lá sem ninguém lhe dizer nada. Comprei umas fraldas-cueca e passaram de repente a andar sempre secas e dali a dois meses também já não fazia de noite… óptimo! Foi tão fácil que quando me lembro de estar antes a pensar no processo como algo de muito complicado até me rio de mim própria.

O salto mais “engraçado” foi quando começou a falar. Aos dois anos e meio balbuciava meia dúzia de palavras. Lembro-me de no Verão termos estado com outras crianças na praia que , com menos de 2 anos já diziam muito mais palavras que ele. Como sempre, também não dedicava muita atenção ao assunto. Quando falar, fala… (é sempre um pouco a minha postura…). De repente, mas esta foi nitidamente de um dia para o outro e coincidiu com o dia que fomos esperar a irmã mais velha ao aeroporto que vinha de Manchester, pois tinha lá estado uns três meses num estágio após ter terminado o curso na escola de teatro – nós atribuímos o entusiasmo ao facto de a irmã ter chegado, pois ele estava muitas vezes com ela e sentiu grandemente a sua falta – então de repente, dizia, do balbuciar meia dúzia de palavras, desata a dizer frases completas e perceptíveis e a empregar palavras como “estação” e  “preferida”. A irmã nem queria acreditar que tinha sido só naquele dia, ficou super contente.

E agora a meio de Março, um outro salto visível:

O Alexandre nunca ligou muito a fazer desenhos. Sempre gostou muito de pintar e a irmã começou a colocar-lhe uns pontinhos que ele unia com umas linhas para desenhar os comboios que queria pintar e as naves espaciais. Nós pensávamos que ele não ligava lá muito a desenhos nem a letras, ligava mais a números.

Antes dos desenhos que vou mostrar a seguir só fazia riscos e bolinhas e uns rabiscos a imitar letras (e letras também, já escreve o nome sozinho há bastante tempo e mais algumas palavras, mais no computador do que “à mão”).

No início de Março, após ver pela enésima vez o filme “Os Robinsons”, onde existe aquela personagem de um menino que desde criança inventa os mais variados aparelhos (um cientista!), pega numa folha e desenhou, segundo as suas palavras, o projecto da construção que ia fazer a seguir (reparando bem, este projecto tem uma parte desenhada e uma parte escrita, uma linha de “hieroglifos” em cima, a explicar o projecto):

dsc008895

Uma fábrica de chocolates!!! (não é que ele goste especialmente de chocolates, gosta especialmente de fábricas e como vê algumas vezes o filme “A Fábrica de Chocolate” só para ver as máquinas da fábrica a funcionar no início do filme…):

dsc00890A fábrica, depois de pronta (a construção inicial foi um pouco alterada entretanto…):dsc00894A fábrica vista de cima:dsc00895Passados uns 15 dias, assim de repente, estávamos todos juntos e estavam também os namorados das irmãs. O namorado da mana Celina fuma, mas como não se pode fumar cá em casa, ele vai lá para fora. O Alexandre apercebeu-se que ele ia fumar e  rapidamente procura um papel e um lápis e desenha o que se segue (um dístico que mostrou ao namorado da irmã assim que ele voltou a entrar em casa: “Proibido Fumar”):

dsc00984Nós muito admirados por ele desenhar um boneco assim de repente, o seu primeiro boneco, começámos a pedir-lhe desenhos: “Faz um para mim”, “Eu também quero, faz outro para mim!”. E ele fez mais dois, um para a mana Catarina (da esquerda para a direita, a mana, uma flor, a casa, uma árvore e em baixo a relva do jardim; o boneco já tem cabelos):dsc009861

(Este é o mesmo desenho, depois de pendurado num biombo)dsc00997E outro para mim (da esquerda para a direita, eu, ele, uma flor e lá em cima, uma nuvem e o sol;  já temos orelhas, reparem e eu tenho uns brincos! 🙂  ) dsc009961Dois dias depois fez um desenho para o pai, para o Dia do Pai (já puz este num post do Pés Na Relva por altura do Dia do Pai…),dsc00991que lhe ofereceu com esta cesta de frutas (porque o pai adora frutas, e ele também!):dsc00995Entretanto, como tenho contado também no Pés na Relva, (para além de no post que referi anteriormente também contei sobre isso neste outro), tem andado muito interessado nas contas de cabeça e também já começou a querer ler sozinho, apenas uns leves sinais… qualquer dia “surpreende-nos” (agora já começámos a ficar familiarizados com os saltos… 🙂  ) com mais um salto, desta vez na escrita e na leitura (dizem que com algumas crianças que já aprendem a ler pelo método global também é assim que aprendem a ler: levam um certo tempo a absorver tudo e de repente “desatam” a ler logo com uma certa fluidez).

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